Guterres teme eventual tentação de Israel de anexar Cisjordânia
Médio Oriente
22 de jan. de 2025, 13:10
— Lusa/AO Online
Depois de intervir no Fórum
Económico Mundial em Davos, Suíça, António Guterres, numa sessão de
perguntas e respostas com o presidente do fórum, Borge Brende, ao ser
questionado sobre a deterioração da situação de segurança na
Cisjordânia, apesar do acordo de cessar-fogo atualmente em vigor,
afirmou-se convicto de que Israel “está fundamentalmente interessada”
neste território, mais do que na Faixa de Gaza, e pode ter a tentação de
proceder a uma anexação, que seria “uma completa violação da lei
internacional”, com graves consequências.De
acordo com Guterres, “há uma situação em que todos ganham: o
cessar-fogo mantém-se, os reféns continuam a ser libertados e tem lugar
uma distribuição massiva de ajuda”. “Agora
esperamos que as próximas fases [do acordo entre Israel e o Hamas]
levem a uma situação de cessar-fogo permanente em Gaza, em que possa ser
estabelecido um processo de transição em Gaza que permita a
reunificação dos territórios palestinianos ocupados e abra caminho a
negociações sérias com vista a uma solução política baseada na solução
de dois Estados. Esta é a situação em que todos ficariam a ganhar”,
disse.O secretário-geral das Nações Unidas
advertiu então que há, no entanto, “outra possibilidade, e a outra
possibilidade é que Israel, sentindo-se entusiasmada pelos sucessos
militares que tem tido, pense que esta é a altura de proceder à anexação
da Cisjordânia e manter Gaza numa situação de espécie de limbo com uma
forma de governação pouco clara”.“É claro
para mim que Israel não está fundamentalmente interessada em Gaza, está
fundamentalmente interessada na Cisjordânia. Ora, isso seria uma
violação total da lei internacional e criaria uma situação em que os
acordos de Abraão [de 2020] ficariam completamente minados e
significaria que nunca teríamos um paz realmente estável no Médio
Oriente”, advertiu.Na terça-feira, o
exército israelita procedeu a uma operação militar de grande envergadura
no campo de refugiados de Jenin, no norte da Cisjordânia ocupada,
durante a qual morreram 10 palestinianos, isto depois de, no dia
anterior, dezenas de colonos terem estado envolvidos em ataques a duas
cidades da Cisjordânia, nos quais mais de 20 palestinianos ficaram
feridos.A Cisjordânia ocupada tem estado a
viver a maior espiral de violência desde a Segunda Intifada
(2000-2005), e pelo menos 491 palestinianos foram mortos por fogo
israelita no território em 2024, na maioria milicianos dos campos de
refugiados, mas também civis, incluindo 75 menores.