Guterres quer recuperação da crise com combate a alterações climáticas
Covid-19
28 de ago. de 2020, 10:51
— Lusa/AO Online
António
Guterres apelou para a “transformação dos sistemas económicos, de
energia e de saúde”, e defendeu um conjunto de seis “ações positivas
para o clima”, que também servem para recuperar do impacto da pandemia,
numa palestra em memória do tecnocrata e empresário industrial indiano
Darbari Seth (1920-1999), que se realiza em Nova Deli.Investir
em empregos verdes, não salvar indústrias poluentes, terminar com os
subsídios para os combustíveis fósseis, ter em conta os riscos
climáticos em todas as decisões financeiras e políticas, trabalhar em
conjunto e, “acima de tudo, não deixar ninguém para trás” são as ações
que o secretário-geral propôs aos governos e às indústrias.António
Guterres sustentou que, durante a recuperação da pandemia, mais de 270
milhões de pessoas podiam ter passado a ter acesso à eletricidade e mais
de nove milhões de empregos poderiam ter sido criados se houvesse
investimentos em energia renovável, eficiência energética e transporte
amigo do ambiente.Para Guterres, as
“crises gémeas da covid-19 e alterações climáticas” sublinharam ainda
mais a necessidade de reduzir a poluição e a dependência de combustíveis
fósseis, para investir em fontes de energia renováveis e limpas.Para
o chefe da ONU, os guias da transformação devem ser a redução da
pobreza e o acesso universal a energia renovável, tal como defendido por
Darbari Seth, fundador do Instituto de Energias e Recursos (TERI, na
sigla em inglês) da Índia.“Continuarei a
exortar todos os países, especialmente os países do G20, a se
comprometerem com a neutralidade de carbono antes de 2050 e a
apresentarem - bem antes da [Conferência sobre o clima] COP26 –
contribuições nacionais mais ambiciosas e determinadas e estratégias de
longo prazo que estejam alinhadas com a meta de 1,5 graus [Celsius]”,
disse António Guterres.O secretário-geral
da ONU defendeu que as medidas também passam por acabar com os subsídios
aos combustíveis fósseis, colocar um preço na poluição com dióxido de
carbono e assumir compromissos de não utilizar combustíveis fósseis
depois de 2020.O responsável considerou
que a Índia está a ir nessa direção, com mais despesa no uso da energia
solar do que em combustíveis fósseis, o que pode vir a ajudar o país a
tornar-se “numa verdadeira superpotência no combate às alterações
climáticas”.Mas, apesar de o país dar
eletricidade a 95% da população, 64 milhões de habitantes ainda não têm
acesso, referiu António Guterres.O
português elogiou países como a Alemanha, Coreia do Sul, Nigéria ou
Reino Unido, que “estão a acelerar a descarbonização das suas economias”
nos planos de estímulo e investimentos, em resposta à crise sanitária.Para
o secretário-geral da ONU, esses países estão “a passar dos
combustíveis fósseis insustentáveis para [energias] renováveis limpas e
eficientes”, e a investir em soluções de armazenamento de energia, como
hidrogénio verde.Ainda assim, existem
“tendência negativas”, como pacotes de recuperação dos países do G20 em
que as energias limpas recebem menos de metade do dinheiro dos
combustíveis fósseis, o que o secretário-geral acusa de “não fazer
sentido comercial”.
“Esta estratégia só vai levar a uma maior
contração económica no futuro e a consequências prejudiciais à saúde”,
declarou António Guterres, referindo que existem mais provas do que
nunca de que a poluição do ar provoca doenças pulmonares como asma,
pneumonia e cancro dos pulmões.“Este ano,
investigadores nos Estados Unidos concluíram que pessoas que vivem em
regiões com altos níveis de poluição do ar têm maior probabilidade de
morrer de covid-19”, referiu.“Se as
emissões de combustíveis fósseis fossem eliminadas, a expectativa geral
de vida poderia aumentar em mais de 20 meses, evitando 5,5 milhões de
mortes por ano em todo o mundo”, acrescentou o antigo primeiro-ministro
português.