Guterres pede manutenção da UNRWA em carta a Netanyahu
30 de out. de 2024, 16:15
— Lusa/AO Online
"A lei, tal
como a entendemos, dá 90 dias antes de entrar em vigor. Estamos em
contacto com as autoridades israelitas. O secretário-geral (...) enviou
uma carta há algumas horas ao primeiro-ministro israelita para sublinhar
as suas preocupações, a questões levantadas em relação ao direito
internacional", frisou Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral.Na
carta, consultada pela agência France-Presse (AFP), António Guterres
insistiu que se a lei for aplicada terá “consequências devastadoras”
para os palestinianos em Gaza e na Cisjordânia, dado que “não existe
atualmente nenhuma alternativa realista à UNRWA que possa fornecer
adequadamente os serviços e assistência necessária”.“Apelo
a vós e ao Governo de Israel para que evitem consequências tão
devastadoras e permitam que a UNRWA continue as suas atividades nos
territórios palestinianos ocupados, incluindo Jerusalém Oriental, de
acordo com as suas obrigações ao abrigo do direito internacional”,
destaca o diplomata português na missiva a Benjamin Netanyahu. Com
cerca de 18.000 funcionários entre a Cisjordânia ocupada e a Faixa de
Gaza, incluindo 13.000 professores e 1.500 profissionais de saúde, a
UNRWA tem prestado ajuda aos refugiados palestinianos desde a sua
criação em 1949.Israel acusa a agência de
manter laços estreitos com os militantes do grupo islamita palestiniano
Hamas, que executou em 07 de outubro de 2023 um ataque sem precedentes
em território israelita, onde deixou mais de 1.200 mortos, na maioria
civis, e fez mais de duas centenas de reféns, desencadeando a guerra em
curso na Faixa de Gaza.António Guterres
sublinhou na sua carta que, ao abrigo do direito internacional, “uma
potência ocupante” deve implementar mecanismos destinados a ajudar a
população dos territórios ocupados.Dado
que “a cessação das atividades da UNRWA deixaria os refugiados
palestinianos sem a assistência essencial de que necessitam”, Israel,
“enquanto potência ocupante, continua a ter de garantir que as
necessidades da população são satisfeitas”, insistiu o secretário-geral.“Israel
não pode invocar as disposições do seu direito nacional como
justificação para o seu incumprimento das suas obrigações ao abrigo do
direito internacional”, frisou Guterres, aludindo à lei aprovada para
proibir a UNRWA.O líder da ONU garantiu
também que se compromete a informar a Assembleia Geral da ONU para que
possa tomar “medidas apropriadas”, mencionando em particular um possível
recurso para o Tribunal Internacional de Justiça.“Israel
continuará a facilitar a ajuda humanitária a Gaza de acordo com o
direito internacional, mas a UNRWA falhou no seu mandato e já não é a
agência apropriada para este trabalho”, realçou, por sua vez, o
embaixador israelita na ONU, Danny Danon, acusando a agência de ser “um
braço do Hamas”.Desde que Israel iniciou a
sua operação em grande escala contra o Hamas, o enclave palestiniano
ficou sitiado e mais de 43 mil pessoas, também maioritariamente civis,
morreram, segundo as autoridades locais controladas pelo grupo islamita.Ainda
no enclave, controlado pelo Hamas desde 2007, mais de 1,9 milhões de
pessoas estão deslocadas, enfrentando uma escassez generalizada de bens
essenciais.