Guterres lamenta impunidade de agressores de mulheres e exige tolerância zero
6 de out. de 2025, 16:24
— Lusa/AO Online
No
debate anual do Conselho de Segurança da ONU sobre a agenda "Mulheres,
Paz e Segurança (WPS, na sigla em inglês), Guterres destacou as
principais mensagens do seu relatório anual sobre o tema, indicando que,
no ano passado, 676 milhões de mulheres viviam a menos de 50
quilómetros de conflitos mortais – o número mais elevado em décadas."A
violência sexual aumentou, com os incidentes documentados contra
raparigas a crescer 35%. (...) A mortalidade materna está a aumentar em
zonas de crise. Meninas estão a ser retiradas da escola. As mulheres na
vida pública, como políticas, jornalistas, defensoras dos direitos
humanos, são alvo de violência e assédio", observou.O
relatório de Guterres sobre a agenda WPS, referente a 2024, faz um
balanço das mudanças positivas alcançadas ao longo dos últimos 25 anos,
ao mesmo tempo em que identifica tendências negativas que minam os
avanços na igualdade de género e direitos das mulheres."Sejamos
francos: com demasiada frequência, reunimo-nos em salas como esta –
cheios de convicção e empenho – apenas para falharmos quando se trata de
mudanças reais na vida de mulheres e raparigas em conflito", disse hoje
o líder da ONU."Falamos de inclusão, mas
com demasiada frequência as mulheres estão ausentes das mesas de
negociação. Falamos de proteção, mas a violência sexual persiste
impunemente. Falamos de liderança, mas as mulheres construtoras da paz
são subfinanciadas, ameaçadas e pouco reconhecidas", acrescentou.O
antigo primeiro-ministro português assegurou que o progresso é
possível, uma vez que mais de 100 países adotaram planos de ação
nacionais sobre "Mulheres, Paz e Segurança”, e várias mulheres têm
liderado a mediação local, elaborando novas leis e promovendo a justiça
para as sobreviventes de violência de género.Além disso, as forças de manutenção da paz da ONU duplicaram o número de mulheres fardadas."Mas
os ganhos são frágeis e estão em retrocesso. Em todo o mundo, temos
observado tendências preocupantes nos gastos militares, mais conflitos
armados e uma brutalidade ainda mais chocante contra as mulheres e
raparigas", assinalou.Guterres deu como
exemplo o Afeganistão, onde mulheres e meninas são sistematicamente
apagadas da vida pública, enfrentando severas restrições no acesso à
educação, ao emprego, à saúde e à justiça, além de violência sexual e
mortalidade materna.Nos Territórios
Palestinianos Ocupados, no Sudão, no Haiti, em Myanmar (antiga Birmânia)
e noutros locais, as mulheres e as raparigas enfrentam riscos graves e
níveis horríveis de violência, afirmou ainda.Perante
tal cenário à escala global, Guterres apelou à ação, pedindo que os
compromissos adotados pelos Estados-membros se traduzam em ações
concretas.Nesse sentido, o
secretário-geral pediu mais financiamento para a igualdade de género e
para paz, especialmente para as organizações de mulheres em países
afetados por conflitos.Pediu igualmente mais metas e quotas vinculativas para uma maior participação feminina.Guterres
exigiu também uma maior responsabilização por todos os atos de
violência de género, incluindo a violência sexual relacionada com
conflitos; e uma maior proteção das mulheres, com tolerância zero à
violência contra as construtoras da paz e defensoras dos direitos
humanos.No debate de hoje estiveram
presentes dezenas de países, incluindo Portugal, assim como a diretora
executiva da ONU Mulheres, Sima Bahous; Olga Uskova, fundadora e
presidente da Cognitive Technologies, uma empresa russa de
desenvolvimento de 'software'; e Noura Erakat, uma advogada e ativista
palestiniana-americana.Noura Erakat focou a
sua intervenção na ofensiva israelita contra mulheres palestinianas,
denunciando ataques à capacidade reprodutiva com o objetivo de "eliminar
coletivamente a possibilidade de um futuro palestiniano".A
ativista relatou a ocorrência de abusos sexuais sistemáticos e de atos
de tortura em cativeiro, incluindo violação, nudez forçada filmada e
eletrocussão de órgãos genitais, que resultaram em traumas mentais e
físicos que impedem qualquer possibilidade de intimidade sexual.Também
referiu o bombardeamento da Clínica de Fertilidade Al-Basma, que
destruiu embriões congelados e esperma e óvulos não fertilizados.Antes
do debate, Dinamarca, França, Grécia, Guiana, Panamá, Coreia do Sul,
Serra Leoa, Eslovénia e Reino Unido - nove dos signatários
dos compromissos assumidos na agenda WPS - divulgaram um comunicado de
apoio "inabalável" a este dossiê e, entre outros pontos, exigiram a
adoção da meta de financiamento mínimo de 15% para a igualdade de
género.Os Estados Unidos, que eram signatários desse compromisso, não participaram nas negociações, nem se juntaram à declaração.