Guterres exige fim de mentiras e obstáculos na ajuda a Gaza
Médio Oriente
28 de ago. de 2025, 17:40
— Lusa/AO Online
"Gaza está coberta de
escombros, de corpos e de exemplos do que podem ser graves violações do
direito internacional", afirmou Guterres aos jornalistas, antes de
discursar numa reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre o Haiti."A
fome da população civil nunca deve ser utilizada como método de guerra.
Os civis devem ser protegidos. O acesso humanitário deve ser
irrestrito. Chega de desculpas. Chega de obstáculos. Chega de mentiras",
exigiu o líder da ONU.Na semana passada, e
pela primeira vez no Médio Oriente, a ONU declarou um cenário de fome
em parte do território da Faixa de Gaza e disse que a situação podia ter
sido evitada se não fosse "a obstrução sistemática de Israel".O
IPC (sigla em inglês), um organismo da ONU com sede em Roma que
monitoriza a segurança alimentar a nível mundial, confirmou que uma
situação de fome estava em curso em Gaza.Contudo,
Israel e Estados Unidos rejeitam as conclusões deste relatório, com
membros do Governo israelita a defender que o documento foi "fabricado"
de forma a "demonizar" Telavive.Nas
declarações aos jornalistas, Guterres criticou ainda os passos iniciais
de Israel para tomar militarmente a Cidade de Gaza, classificando a
situação como uma nova e perigosa fase no conflito e avaliando que a
expansão das operações militares terá consequências devastadoras."Centenas
de milhares de civis — já exaustos e traumatizados — seriam forçados a
fugir mais uma vez, colocando as suas famílias em perigos ainda maiores.
Isto precisa acabar", insistiu.O
ex-primeiro-ministro português condenou também o ataque israelita
desta semana contra o Hospital Nasser, em Khan Yunis, que matou
vários civis, incluindo profissionais de saúde e jornalistas, reforçando
que tudo isto acontece "com todo o planeta a assistir"."É preciso haver responsabilização", frisou."As
pessoas estão a morrer de fome. As famílias estão a ser dilaceradas
pelo deslocamento e pelo desespero. As grávidas enfrentam riscos
inimagináveis. E os sistemas que sustentam a vida foram sistematicamente
desmantelados. Estes são os factos no terreno. E são o resultado de
decisões deliberadas que desafiam a humanidade básica", disse.Dirigindo-se
diretamente a Israel, o líder da ONU reforçou que, enquanto potência
ocupante, Telavive tem obrigações claras, incluindo o dever de concordar
e de facilitar um acesso humanitário muito maior, assim como de
proteger os civis e as infraestruturas civis.Desde o início deste conflito, em outubro de 2023, 366 funcionários da ONU foram mortos em Gaza.Com
um grande risco pessoal, os trabalhadores humanitários continuam a
atuar no enclave palestiniano, mas os seus esforços estão a ser
bloqueados, atrasados e negados diariamente, lamentou António
Guterres, referindo-se aos obstáculos que Telavive impõe às missões de
ajuda humanitária que esperam por dias nas fronteiras de Gaza sem obter
uma autorização de passagem de Israel.A
solução, reiterou Guterres, está num cessar-fogo imediato, na libertação
incondicional de todos os reféns mantidos pelo grupo islamita
palestiniano Hamas e na entrada irrestrita de ajuda humanitária em Gaza.A
guerra em curso em Gaza foi desencadeada pelos ataques liderados pelo
grupo extremista palestiniano Hamas em 07 de outubro de 2023 no sul de
Israel, que causaram cerca de 1.200 mortos e mais de duas centenas de
reféns.A retaliação de Israel já provocou
mais de 62 mil mortos, a destruição de quase todas as infraestruturas de
Gaza e a deslocação forçada de centenas de milhares de pessoas.Israel
também impôs um bloqueio à entrega de ajuda humanitária no enclave,
onde mais de 300 pessoas já morreram de desnutrição e fome, a maioria
crianças.