Guterres critica países do norte por causa de refugiados e alterações climáticas
6 de jan. de 2023, 11:39
— Lusa/AO Online
Discursando
por ocasião da receção do Prémio Universidade de Lisboa, que lhe foi
atribuído em 2020 mas apenas agora entregue, Guterres elogiou Portugal
como um país "exemplar na sua política de acolhimento aos refugiados". "É
verdade que a nossa localização periférica na Europa fez com que
tivéssemos tido uma pressão de solicitantes de asilo menor do que outros
países europeus. Mas é também é verdade que outros países ainda mais
periféricos do que nós, até recentemente em crises de refugiados, não
tiveram a mesma generosidade e a mesma abertura", criticouEsses
países, nomeadamente no leste da Europa, considerou, redimiram-se na
recente crise de refugiados decorrente da invasão russa da Ucrânia, mas o
líder da ONU recordou que o mesmo não ocorreu num passado recente, "em
que refugiados da Síria se movimentaram pelos Balcãs de forma caótica,
vendo portas atrás de portas fechadas".Guterres
saudou a abertura que foi ao longo dos últimos meses demonstrada em
relação à crise na Ucrânia, mas, ao mesmo tempo, deixou um aviso: "Não
pode deixar de nos fazer refletir por que é que a Europa recebe os
refugiados ucranianos e tantos países europeus foram tão reticentes em
receber refugiados sírios e africanos".Segundo
o antigo primeiro-ministro português, esta situação "causou e causa em
muitos que vivem no chamado 'sul global' uma certa frustração, mesmo uma
certa zanga, que leva a que lhes seja difícil exprimir a
solidariedade que os europeus esperam quando a Europa enfrenta uma crise
devastadora, com a invasão russa da Ucrânia e todas as consequências
que isso teve na nossa vida quotidiana, nos países europeus e de forma
ainda mais dramática nos países do terceiro mundo".Noutra
linha de críticas, António Guterres referiu, que além dos conflitos, há
algo que não deixar de ser lembrado: "Estamos a perder a luta contra as
alterações climáticas. A possibilidade de mantermos um crescimento da
temperatura global limitado a 1,5 [graus celsius] está à beira de se
perder e irreversivelmente. Continua a haver, sobretudo ao nível dos
países grandes emissores, uma falta de consciência política
indispensável para inverter esta situação", lamentou.Nessa
linha, recordou também a necessidade de uma justiça climática, porque
"a verdade é que os países que mais sofrem os impactos dramáticos das
alterações climáticas não são os que mais contribuem para essas
alterações e não são os países que têm mais recursos para responder às
necessidades de reconstrução, reabilitação e apoio às populações". Por
isso, aponta "um enorme egoísmo dos países do norte em recusar-se a
aceitar todas as responsabilidades, inclusivamente aquelas que assumiram
no Acordo Paris, de solidariedade com os países do sul".Falando
perante o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o antigo
chefe de Estado Ramalho Eanes, vários membros do Governo, o reitor da
Universidade de Lisboa, presidentes dos tribunais superiores, chefes
militares e membros do corpo diplomático, Guterres descreveu que passou o
Natal e o ano novo em família num país que está "entre os três mais
seguros e pacíficos do mundo", mas o mesmo não aconteceu a muitos
funcionários da ONU, a quem dedicou o prémio. "Não
puderam passar o Natal e o ano novo com as suas famílias e não o
fizeram num país seguro, porque tiveram de continuar a trabalhar em
alguns dos lugares mais remotos e perigosos em defesa das mais nobres
causas que unem a humanidade".Segundo
o líder da ONU, "por causa de um paradoxo", hoje há operações de
manutenção de paz "onde não há nenhuma paz para manter". Foram
concebidas para na sequência de acordos de paz, consolidar esses mesmos
acordos e as transições para a democracia, "mas a verdade é que a
maioria dos capacetes azuis enfrentam situações em que pululam grupos
armados, grupos terroristas, alguns dos quais inclusivamente mais bem
apetrechados e mais bem armados do que os soldados da paz". Foi
essa a razão que o levou a defender nas Nações Unidas a encarar este
problema como uma prioridade, nomeadamente em África, com a criação de
forças africanas robustas de imposição da paz e luta antiterrorista, sob
o artigo sétimo da Carta das Nações Unidas e com financiamento
garantido através das contribuições obrigatórias. "Esta
foi a mais séria batalha que perdi como secretário-geral das Nações
Unidas", admitiu, prosseguindo: Não consegui convencer o Conselho de
Segurança a aceitar esta necessidade, e por isso continuamos a ter
soldados da paz a defender civis onde a paz infelizmente não existe,
arriscando as suas vidas, muitos deles perdendo as suas vidas. Digo com
orgulho que aí os portugueses têm sido exemplares e um contributo
absolutamente decisivo para as Nações Unidas e para aqueles que queremos
proteger".Por fim Guterres, na
aceitação do prémio, no valor de 25 mil euros, que vai doar ao Conselho
Português para os refugiados, deixou um apelo à não resignação. "Se
alguma este prémio representa para mim é a necessidade de manter uma
total não resignação a uma situação em que a guerra continua a ser um
fenómeno marcante nas relações entre os povos, e nas relações no
interior dos países, entre as comunidades, etnias e grupos religiosos.
Não podemos aceitar que a guerra se transforme no normal na forma de
relacionamento de seres humanos em tantas partes do mundo".Em
suma, prometeu, "lutar pela paz, lutar pela fim ou redução das
desigualdades, reafirmação dos direitos humanos e igualdade de género, e
travar esta luta louca que temos vindo a ter com a natureza".