Guterres alerta para "onda de misoginia" a espalhar-se pelo mundo
22 de set. de 2025, 17:36
— Lusa/AO Online
Numa reunião de
alto nível em que se assinalou o 30.º aniversário da Quarta Conferência
Mundial sobre a Mulher, Guterres avaliou que o progresso idealizado em
Pequim há 30 anos tem sido lento e desigual, frisando que "nenhuma
nação” alcançou a igualdade plena para as mulheres e raparigas.O
Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número cinco, que diz
respeito à igualdade de género, "está muito atrasado" e, enquanto
isso, "multiplicam-se os conflitos e os desastres climáticos", sendo que
os "direitos humanos das mulheres e das meninas são vítimas de ambos",
afirmou Guterres."Barreiras culturais e
estruturais permanecem enraizadas. A tecnologia está a espalhar ódio
como um vírus. E uma onda de misoginia está a espalhar-se pelo mundo.
Sejamos claros: a igualdade de direitos e de oportunidades não é uma
questão partidária. São imperativos globais e a base da paz, da
prosperidade e do progresso", defendeu o líder da ONU.O
antigo primeiro-ministro português salientou que em cada região, em
cada país e em cada comunidade, mulheres e raparigas lutam pelos seus
direitos e exigem liberdades, combatem práticas abusivas, mobilizam-se
por proteções legais e organizam-se para ocupar o seu lugar de direito à
mesa nas decisões e nos processos de paz."As
Nações Unidas apoiam estes esforços. Todos os líderes devem fazer o
mesmo", instou, deixando claro "que a tradição não pode desculpar a
opressão".O secretário-geral indicou que,
no início deste ano, os Estados-membros deram um importante passo em
relação a este assunto, com a adoção de uma nova declaração política em
que se comprometeram a implementar a Declaração e a Plataforma de Ação
de Pequim – "de forma rápida e integral"."Todos
os países devem assumir esta responsabilidade. Precisamos de um apoio
forte e visível aos mais altos níveis – e de planos concretos,
suportados por investimentos reais", apelou.No
universo das Nações Unidas, Guterres disse que a organização conseguiu
alcançar e manter a paridade de género entre altas lideranças."Continuaremos a trabalhar para alcançar a paridade de género em toda a organização", assegurou.Contudo, apesar desses esforços, nunca a ONU foi liderada por uma mulher.No
final do próximo ano, António Guterres terminará o seu segundo mandato e
será eleito um novo secretário-geral da ONU, havendo uma forte pressão
para que o cargo seja ocupado por uma mulher, o que seria a primeira vez
em 80 anos de organização.Contudo, a
possibilidade da substituição de Guterres por uma mulher parece estar a
perder força, visto que a América Latina — a região que, segundo um
forte consenso, deverá apresentar um candidato à sucessão — não
conseguiu chegar a um acordo sobre um nome, sendo que vários estão a
ser considerados sem apoio suficiente."Há
30 anos, a Declaração de Pequim declarou os direitos das mulheres como
direitos humanos. Hoje, nesta sala, precisamos de ouvir como vão tornar
estas ambições realidade", disse Guterres, dirigindo-se aos líderes
presentes no evento, celebrado durante a Semana de Alto Nível
da 80.ª Assembleia-Geral da ONU."Deixem-nos
ouvir os vossos compromissos. Deixem-nos ver os vossos planos.
Deixem-nos alcançar a igualdade para as mulheres e raparigas de que o
nosso mundo tanto necessita", concluiu. A
reunião de hoje refletirá sobre o progresso alcançado desde a histórica
conferência de 1995 em Pequim e destacará conquistas, melhores práticas,
lacunas e desafios contínuos no avanço da igualdade de género em todo o
mundo.