Guterres alerta para onda crescente de intolerância e ódio anti-muçulmano
Hoje 17:49
— Lusa/AO Online
Num evento de alto
nível na Assembleia-Geral da ONU para assinalar o Dia Internacional de
Combate à Islamofobia, Guterres recordou a instabilidade e os conflitos
que atingem o mundo e sublinhou que milhões de muçulmanos em todo o
mundo questionam-se sobre o futuro das suas comunidades."Os
quase dois mil milhões de muçulmanos do mundo vêm de todos os cantos do
planeta. São cidadãos. Muitos são migrantes, mulheres e homens, jovens
cheios de esperança e idosos cheios de sabedoria. As suas culturas,
línguas e tradições refletem a extraordinária diversidade da própria
humanidade. No entanto, para muitos muçulmanos, o quotidiano pode ser
marcado pela exclusão", disse.Alertando
para "uma onda crescente de intolerância e ódio contra os muçulmanos",
Guterres afirmou que o preconceito pode surgir de forma explícita,
através de discriminação institucional, marginalização socioeconómica,
restrições abrangentes à imigração e vigilância e criação de perfis
injustificados.Contudo, frisou que o
preconceito também pode ser subtil, por via de oportunidades que são
negadas silenciosamente, suposições não questionadas e perguntas
carregadas de suspeita."Estas experiências
quotidianas raramente chegam às manchetes ou às estatísticas",
observou, destacando: "Mas, com o tempo, moldam vidas, corroem a
confiança e enviam uma mensagem clara sobre quem é considerado como
pertencente e quem não é".Quando as
narrativas discriminatórias são repetidas por aqueles que se encontram
em posições de autoridade, afirmou o antigo primeiro-ministro português,
"o preconceito normaliza-se"."Quando os
estereótipos não são contestados, cristalizam-se em políticas públicas. E
quando o medo orienta a tomada de decisões, segue-se a injustiça",
lamentou."Isto é um ataque aos muçulmanos –
e é um ataque aos valores que sustentam sociedades pacíficas e
inclusivas em todo o mundo. Os governos têm uma clara responsabilidade.
As leis e as políticas devem salvaguardar a igualdade, não perpetuar o
preconceito", insistiu.O líder da ONU
apontou igualmente responsabilidades às empresas de tecnologia,
argumentando que é preciso fazer muito mais para identificar, prevenir e
combater o discurso de ódio e o assédio 'online' e 'offline'.Para
lutar contra o preconceito, a xenofobia e a discriminação,
Guterres nomeou o espanhol Miguel Ángel Moratinos como enviado especial
das Nações Unidas para o Combate à Islamofobia, visando reforçar a
coordenação, aprofundar as parcerias e melhorar a resposta coletiva.António Guterres lembrou que, com o fim do Ramadão, os
muçulmanos de todo o mundo reafirmam valores que constituem também a
base da Carta da ONU: empatia pelos vulneráveis, generosidade para com o
próximo e responsabilidade para com a comunidade em geral."Estes
princípios universais devem orientar a nossa resposta global ao ódio e à
divisão. Neste Dia Internacional de Luta Contra a Islamofobia,
reafirmemos o nosso compromisso com a igualdade, os direitos humanos e a
dignidade de todas as pessoas, em todo o lado. Rejeitemos as narrativas
de medo e exclusão", instou.Em 2022, a
Assembleia-Geral das Nações Unidas adotou uma resolução que designou 15
de março como o Dia Internacional de Combate à Islamofobia.O
documento enfatiza que o terrorismo e o extremismo violento não podem e
não devem ser associados a nenhuma religião, nacionalidade, civilização
ou grupo étnico.Apela a um diálogo global
sobre a promoção de uma cultura de tolerância e paz, baseada no
respeito pelos direitos humanos e pela diversidade de religiões e
crenças.