Gulbenkian vai levar cem anos de obras de artistas portuguesas à Bélgica e França
16 de dez. de 2019, 15:42
— Lusa/AO online
O protocolo de
colaboração para a realização das exposições foi hoje assinado, em
Lisboa, na sede da Fundação Calouste Gulbenkian, pela ministra da
Cultura, Graça Fonseca, e a presidente da instituição, Isabel Mota, na
presença de deputados, artistas e embaixadores. A
exposição em torno das mulheres artistas portuguesas vai acontecer por
ocasião da Presidência Portuguesa da União Europeia, e será apresentada
no centro de artes Bozar, em Bruxelas, no primeiro semestre de 2021, e
seguirá, no segundo semestre, para o Centro de Criação Contemporânea
Olivier Debré, na cidade francesa de Tours, no âmbito da “Temporada
Cruzada Portugal-França".Isabel Mota,
presidente da Gulbenkian, sublinhou, no seu discurso, que aceitou o
desafio lançado pela ministra da Cultura porque "está em sintonia" com
alguns dos objetivos da política cultural da fundação, nomeadamente a
promoção, tanto da cultura e da arte portuguesa a nível internacional,
como a paridade de género.A presidente
apontou que o projeto - que será comissariado pela historiadora de Arte e
curadora Helena de Freitas - vai mostrar "uma vontade de reconhecer que
há um espaço de criação, que pertence a estas artistas, que nem sempre
teve o reconhecimento merecido".As
artistas portuguesas "constituem um caso singular de alcance
internacional, em particular no confronto com o percurso dos artistas
masculinos da mesma geração, na segunda metade do século XX",
acrescentou."Este projeto serve também
para tentar compreender as razões pelas quais um número surpreendente de
mulheres artistas vingou internacionalmente, quando o contexto social,
político e económico não favorecia, em geral, tal visibilidade da
criação artística portuguesa", disse a presidente de Gulbenkian. A
exposição intitula-se "Artistas Mulheres em Portugal - De 1900 aos
nossos dias", e terá curadoria e coordenação científica da historiadora
de Arte Helena de Freitas, conservadora do Museu Calouste Gulbenkian,
que, por seu turno, escolheu o curador Bruno Marchand para a acompanhar
neste projeto.A partir de fevereiro de
2021, as obras de mulheres artistas portuguesas vão estar expostas em
Bruxelas, no Bozar, "um dos centros de arte mais importantes da Europa",
projetado pelo arquiteto belga Victor Horta, um dos pioneiros da Arte
Nova, e que "garante a visibilidade e notoriedade internacional deste
projeto singular".Em outubro de 2021, a
exposição será também apresentada em França, no Centre de Création
Contemporaine Olivier Debré, em Tours, integrada no programa geral da
Saison Culturelle France-Portugal, e, em 2022, deverá ser apresentada em
Portugal, num local ainda a indicar."Com a
escolha deste equipamento cultural pretendemos aliar a apresentação da
exposição a um notável espaço arquitetónico, concebido pela dupla
portuguesa Francisco e Manuel Aires Mateus", salientou Isabel Mota.Este
projeto juntará no mesmo espaço artistas portuguesas de referência,
como Maria Helena Vieira da Silva, Lourdes Castro, Paula Rego, Ana
Vieira, Maria Lamas, Graça Morais, Salette Tavares, Helena Almeida,
Joana Vasconcelos, Maria José Oliveira, Ana Jotta e Leonor Antunes,
entre várias outras. A exposição será
desenvolvida a partir de obras escolhidas destas artistas, "dando
particular atenção a aspetos mais reservados e mesmo inéditos de algumas
delas", revelou.A seleção será feita a
partir de coleções públicas, mas também de coleções particulares e de
acervos das artistas, compreendendo obras em suportes distintos como a
pintura, a escultura, o desenho, o objeto, o livro, a instalação, o
filme, o vídeo e o áudio. "Colmatar o
défice de representação de artistas mulheres – bem como de outras
minorias – tem sido aposta do Museu Gulbenkain, nos seus vários planos
de atuação", apontou, referindo a coleção permanente, as exposições
temporárias, as aquisições e as atividades educativas".Nesta
linha, a presidente da Gulbenkian revelou que está também a ser
organizada uma extensa e importante exposição a ser apresentada em 2021,
primeiro no Museu Calouste Gulbenkian, na primavera, e, depois, no
inverno, no Instituto de Valência de Arte Moderna (IVAM), em Espanha.Esta
exposição, "sobre um período mais limitado no tempo, e com um foco em
Portugal, mas igualmente em Espanha", terá como título “Mulheres
Artistas, ditadura e transição para a democracia: o caso de Portugal e
Espanha entre 1965 e 1980”.Por seu turno,
na cerimónia, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, salientou, na sua
intervenção, que, com este protocolo, a tutela começa a preparar, a
partir de hoje, a programação cultural que acompanhará a Presidência
Portuguesa do Conselho da União Europeia, no primeiro semestre de 2021,
bem como o projeto da Temporada Cruzada Portugal-França 2021/22. "Estes
dois momentos serão centrais para a cultura portuguesa e, muito em
particular, uma oportunidade única para promover a internacionalização
da arte e artistas nacionais", comentou a ministra. Graça
Fonseca disse ainda que este projeto pretende ser um contributo "para o
aprofundamento do projeto europeu e para o reforço de valores centrais à
Europa, como a igualdade de género"."O
talento no feminino preencheu e continua a preencher com nomes e
valorosas obras a nosso panorama artístico. Numa narrativa de séculos
que pertenceu quase exclusivamente aos homens, nunca deixou de haver
mulheres que construíram com a sua imaginação e arte, a identidade
cultural portuguesa", acrescentou. Graça
Fonseca citou, como exemplo, a artista Sarah Affonso (1899—1983), que
não gostava quando as pessoas lhe diziam que a pintura da artista era
"igual" à do marido, Almada Negreiros, e que ficava mesmo ofendida."Sobretudo
porque ele [Almada] tem um grande nome. E isso foi das coisas que me
fez parar", recordou a ministra, citando a artista, como um exemplo de
muitas mulheres que não prosseguiram a sua arte por motivos semelhantes.