Guardas querem separação entre segurança prisional e reinserção social
26 de set. de 2024, 10:57
— Lusa/AO Online
Numa
audição na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e
Garantias no parlamento, a pedido da Iniciativa Liberal (IL) na
sequência da fuga de cinco reclusos da prisão de Vale de Judeus a 07 de
setembro, a deputada Mariana Leitão (IL) pediu que se clarificassem
“incongruências entre declarações” do ex-diretor dos serviços
prisionais, que negou que a fuga se relacionasse com falta de recursos, e
dos sindicatos dos guardas prisionais, que a apontam como uma das
causas.Na resposta, o presidente do
Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (SNCGP), Frederico
Morais, começou por apontar responsabilidades aos deputados e à
Assembleia da República, recordando que já tinha alertado numa audição
anterior, no início do ano, para a probabilidade de uma fuga perante o
estado dos estabelecimentos prisionais e a falta de guardas.“Esta
casa é também culpada por tudo isto. (…) Nas últimas duas décadas os
serviços prisionais foram completamente abandonados”, acusou Frederico
Morais, que viria numa intervenção posterior a acrescentar que não
queria responsabilizar os deputados diretamente, mas frisar que
representam partidos que integram habitualmente governos.Considerou
ainda “lamentáveis todas as afirmações” do ex-diretor-geral de
Reinserção e Serviços Prisionais, Rui Abrunhosa Gonçalves, que se
demitiu na sequência da fuga, e insistiu nas falhas de segurança do
estabelecimento prisional (EP) de Vale de Judeus, apontando, por
exemplo, que um sistema de deteção de movimentos está avariado há cinco
anos e que se estivesse em funcionamento a fuga teria sido evitada.Já
Júlio Rebelo, presidente do Sindicato Independente do Corpo da Guarda
Prisional (SICGP), afirmou, por seu lado, que as torres de vigia,
entretanto desativadas, deviam voltar a funcionar, explicando numa
intervenção posterior que o sistema de videovigilância atualmente em uso
devia existir apenas como complementaridade a essas torres, que se
cumprissem a função de ter em permanência um guarda armado a vigiar o
perímetro do EP, o que funcionaria como elemento dissuasor de eventuais
tentativas de fuga.Criticou o que
considerou ser uma “aposta na reinserção social” e um “abdicar da
segurança” no sistema prisional, defendendo que prisões e reinserção
social devem voltar a ser separadas, exigência na qual foi acompanhado
por Frederico Morais, que considerou a fusão materializada na criação da
Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) como um
“casamento com divórcio anunciado”.Frederico
Morais reiterou que os guardas prisionais “não serão bode expiatório”
para a fuga de Vale de Judeus e adiantou que não existe nas
investigações em curso nada contra os guardas prisionais.Os
dois representantes sindicais insistiram na degradação das prisões, na
falta de condições de trabalho para os guardas, na falta de
profissionais, apontando necessidades de cerca de mais 1.500 guardas,
para ocupar postos de base, mas também de chefias.Frederico
Morais deixou críticas às nomeações de dirigentes para a DGRSP e para a
direção das cadeias sem concurso, num processo que classificou como
sendo “por lobby” mas deixou sem resposta os deputados que o instaram a
ser mais concreto nas críticas.A
Associação Sindical de Chefias do Corpo da Guarda Prisional declinou o
convite para estar presente na audição conjunta, considerando que as
diferentes responsabilidades no sistema prisional entre guardas e
chefias deviam levar a audições em separado.Cinco
reclusos fugiram a 07 de setembro do Estabelecimento Prisional de Vale
de Judeus, em Alcoentre, no concelho de Azambuja, distrito de Lisboa. A
ministra da Justiça só falou publicamente da fuga três dias depois para
afirmar que resultou “de uma cadeia sucessiva de erros e falhas muito
graves, grosseiras e inaceitáveis”.Com
base no relatório da auditoria à atuação dos serviços de vigilância e
segurança, que foi elaborado pela Divisão de Serviços de Segurança da
Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, Rita Alarcão Júdice
explicou que a fuga dos reclusos “demorou seis minutos” e só foi
detetada cerca de uma hora depois.Os
evadidos são dois cidadãos portugueses, Fernando Ribeiro Ferreira e
Fábio Fernandes Santos Loureiro, um cidadão da Geórgia, Shergili
Farjiani, um da Argentina, Rodolf José Lohrmann, e um do Reino Unido,
Mark Cameron Roscaleer, com idades entre os 33 e os 61 anos.Foram
condenados a penas entre os sete e os 25 anos de prisão, por vários
crimes, entre os quais tráfico de droga, associação criminosa, roubo,
sequestro e branqueamento de capitais.