Grupo de cientistas acredita que sons poderão ajudar na avaliação do Parkinson
11 de abr. de 2024, 18:53
— Lusa
O
estudo parte da premissa de que todos podemos ver os tremores que
ocorrem em muitos doentes de Parkinson, mas questiona o que acontece
quando o principal sintoma é a lentidão ou a ausência de movimentos.A
conclusão, conforme se lê numa síntese enviada à agência Lusa pela
FMUP, é que “o que os olhos não captam pode agora ser apreendido e
interpretado através de sons e da inteligência artificial”.No
estudo, publicado no Parkinsonism & Related Disorders, participaram
54 pessoas com doença de Parkinson e 28 pessoas sem a doença.Os
cientistas gravaram os sons escutados em tarefas motoras simples que os
doentes repetem com frequência, como tocar com as mãos na mesa ou abrir
e fechar os dedos.Seguiu-se uma análise a esses sinais sonoros, com recurso a modelos de “machine learning”. Foram
tidas em consideração a velocidade e a amplitude dos movimentos,
considerando hesitações e alterações nos movimentos executados.No
Dia Mundial de Conscientização da Doença de Parkinson que se assinala
hoje, a FMUP destaca que o principal resultado deste estudo “consiste na
criação de um algoritmo que deteta e analisa os sinais sonoros das
pessoas com problemas motores, mais concretamente com lentidão de
movimentos (bradicinesia), um dos principais sintomas da doença de
Parkinson”.“O que é interessante é que, em
alguns doentes, pode ser mais fácil ouvir a bradicinésia, do que
propriamente vê-la”, afirma Rui Araújo, professor da FMUP e médico
especialista em neurologia, citado no resumo enviado à Lusa.Os
cientistas recorreram à tecnologia existente para demonstrar que é
possível avaliar e classificar, com maior objetividade, os problemas
motores característicos da doença de Parkinson, “evitando a
subjetividade e a variabilidade resultantes da classificação com base
apenas na imagem”.“A medição quantitativa e
mais objetiva da gravidade dos sintomas dos doentes poderá também
contribuir para um melhor diagnóstico e poderá ajudar a monitorizar
melhor os resultados dos tratamentos, na prática clínica”, é, ainda,
descritoDe acordo com o grupo de
cientistas, a ideia de ouvir os movimentos na doença de Parkinson surgiu
na sequência de um caso de estudo que envolveu um violinista
profissional que começou a reportar uma dificuldade crescente para tocar
violino. A análise dos sinais sonoros,
neste caso, terá mostrado um decréscimo na intensidade e frequência dos
movimentos ao longo do tempo, compatível com tremor e bradicinésia
audíveis, pela primeira vez registado pelo mesmo grupo de
investigadores.Assim, uma das aplicações
imediatas do modelo agora desenvolvido é o uso em ensaios clínicos, onde
os doentes poderão ser avaliados num ambiente devidamente controlado. O objetivo é que este tipo de modelos possa ser estandardizado e utilizado na clínica ou mesmo no domicílio dos doentes. Além
de Rui Araújo, participaram neste trabalho os investigadores dos Países
Baixos Debbie de Graaf, Nienke M. de Vries, Bastiaan R. Bloem e Joanna
IntHout (Center of Expertise for Parkinson & Movement Disorders),
Madou Derksen e Koos Zwinderman (Amsterdam UMC). O
projeto teve financiamento do Dutch Research Council (NWO), Verily Life
Sciences LLC e Dutch Ministry of Economic Affairs and Climate Policy.