Greve na reabertura dos tribunais na quinta-feira trará mais atrasos na justiça
31 de ago. de 2022, 08:43
— Lusa/AO Online
"Recomeçará ainda com mais atrasos, desde
diligências adiadas a processos não urgentes parados, o que acarretará
prejuízos vários para os cidadãos", disse à agência Lusa António Marçal,
presidente do SFJ, que convocou a greve juntamente com o Sindicato dos
Oficiais de Justiça (SOJ). Segundo António
Marçal, "a greve destina-se principalmente a sensibilizar o utente da
justiça" para os problemas graves do setor e dos funcionários judiciais,
advertindo que "lamentavelmente, os problemas de julho continuarão em
setembro, facto maioritariamente resultante da falta de recursos
humanos". Os funcionários judiciais em
greve protestam contra a falta de efetivos, a estagnação das carreiras e
das promoções e aquilo que entendem ser a reiterada atuação à margem da
lei por parte da Direção-Geral da Administração da Justiça (DGAJ).
Para o presidente do SFJ, "o que fere a justiça são políticas que se
vêm consolidando ao longo dos últimos anos, que se mostram
contraproducentes". "Na verdade, acabam
por trazer prejuízo à sociedade – desde os tribunais privados, onde se
discutem dinheiros públicos e onde os juízes são nomeados pelas partes,
os chamados `tribunais ad hoc´, constituídos apenas para esse fim,
passando pelas dificuldades do acesso ao Direito e consequentemente
prejudicando essencialmente os cidadãos, nomeadamente, no que concerne
ao acesso à justiça por parte da classe média".
Quanto ao acesso à Justiça, António Marçal considerou que "só os mais
pobres e desfavorecidos têm direito ao apoio jurídico", criticando que o
Estado esteja também a “empurrar aqueles que não podem pagar para os
julgados de paz ou para uma resolução alternativa de litígios,
extrajudicial". "Cada vez mais, o poder
político opta por políticas de desjudicialização, deixando o cidadão
médio desamparado, na medida em que, nessas situações, não existe uma
igualdade de armas. Infelizmente continuamos a assistir a uma justiça
para ricos e outra para pobres", afirmou.
De acordo com o dirigente sindical, tudo o que sai da esfera dos
tribunais, como por exemplo o caso das execuções (ações de cobrança de
dívidas), gera "atropelos aos direitos" do cidadão.
"O cidadão comum é vítima de penhoras abusivas, execuções que se
eternizam sem dar satisfações aos executados, contas finais que não são
elaboradas, tal como é demonstrado em diversas situações desta natureza
que têm vindo a público", assinalou António Marçal, lembrando que nos
tempos em que as execuções se encontravam a ser tramitadas nos tribunais
"era mais fácil ao executado obter informações e tomar providencias
sobre qualquer penhora que considerasse abusiva".
O presidente do SFJ criticou também a situação específica dos
inventários (por exemplo, relação dos bens pertencentes a uma pessoa
falecida) que, "por opção política, foram entregues aos notários há
alguns anos, mas que, também por opção politica, regressaram aos
tribunais, visto que os notários se viram confrontados com processos
bastante minuciosos, laboriosos e demorados, que não os compensava
monetariamente". Relativamente à última
movimentação de oficiais de justiça, António Marçal assinalou que "há
tribunais que ficam numa situação muito periclitante", uma vez que pela
DGAJ foram "retirados elementos essenciais ao seu funcionamento, sem
haver o cuidado de os substituir por outros".
"Esta situação, mais não é, do que a efetivação para todos (os
funcionários judiciais) de um inferno diário que os levará ainda mais à
exaustão", concluiu. O presidente do SFJ
recordou que as reivindicações dos oficiais de justiça "são já antigas" e
bem conhecidas dos sucessivos governos, e disse que o atual executivo
"parece também fazer `orelhas moucas´, o que obriga a classe a continuar
a lutar" pelas suas reivindicações."Os
trabalhadores da justiça têm direito à sua dignidade, a serem
respeitados e, é por isso que os sindicatos (SFJ e SOJ) se concertaram e
anunciaram dois dias de greve", reiterou António Marçal.