Greve geral "inédita" em França leva milhares à rua contra reforma do sistema de pensões
19 de jan. de 2023, 08:48
— Lusa/AO Online
"É
uma greve inédita, ou, pelo menos, há muito tempo que não acontecia
conseguir juntar as oito principais centrais sindicais e ter todas a
dizer que não querem esta reforma", disse à Agência Lusa Boris Plazzi,
secretário-confederal da CGT."É mesmo excecional ter toda a gente de acordo e é por isso que muita gente vai fazer greve", adiantou.A
oposição ao projeto de reforma do sistema de pensões apresentado pela
primeira-ministra Elisabeth Borne no dia 11 de janeiro conseguiu unir as
confederações CFDT, CGT, FO, CFE-CGC, CFTC, UNSA, FSU e Solidaires.Entre
outras propostas, esta reforma prevê aumentar progressivamente a idade
da reforma de 62 para 64 anos até 2030, fazer com que uma carreira
contributiva completa tenha 43 anos de descontos e ainda acabar com
regimes excecionais de pensões para quem integra a partir de agora o
mercado de trabalho.A resposta dos
trabalhadores após a insistência de Emmanuel Macron de apresentar esta
proposta - afastada da agenda mediática desde 2020 devido à pandemia de
covid-19 - não se fez esperar e os sindicatos preveem "um dia negro" em
todo o país. "Esperamos uma grande adesão
(...). Temos muitas respostas positivas das nossas bases que mostram que
muita gente vai fazer greve, não só no setor público, mas também no
setor privado. Haverá muita gente nas ruas. Temos mais de 200
manifestações previstas em todo o país", detalhou Boris Plazzi.Nos
transportes, prevê-se a circulação apenas de um TGV (comboio de alta
velocidade) e de nenhum Intercidades. É possível também que um em cada
cinco voos seja cancelado no aeroporto de Orly, nos arredores da
capital.Em Paris, três linhas de metro
deverão fechar completamente e outras 10 apenas vão circular nas horas
de ponta. É na capital que vai acontecer a maior manifestação do país,
que vai bloquear a circulação entre a emblemática Place de la Republique
e Nation.Nas escolas em todo o país,
estima-se que pelo menos 70% dos professores façam greve e os próprios
alunos apelaram à greve, tendo a intenção de barricar vários liceus.
Também os hospitais vão estar parados, especialmente os serviços das
urgências, sobrecarregados nos últimos meses.A
ameaça de escassez dos combustíveis volta também a assustar os
franceses que dependem do carro para as suas deslocações quotidianas, já
que os trabalhadores das refinarias também vão aderir à greve. Este
setor já tem mais greves previstas em janeiro e em fevereiro.Segundo
uma sondagem da revista "Le Point", levada a cabo pelo
instituto Cluster17, dois terços dos franceses são favoráveis a esta
greve geral, especialmente os mais jovens, com 75% dos inquiridos entre
os 18 e os 24 anos a responderem estar ao lado dos grevistas. "Os
preços explodiram em França e temos trabalhadores e famílias completas
numa situação muito complicada", assegurou o líder da CGT. "O
Governo deveria ajudar as pessoas a terem dinheiro para acabar o mês,
em vez de fazer reformas. Há já fatores suficientes de inquietude na
sociedade, que levam a um clima social muito tenso e podem trazer muita
gente à rua, durante muito tempo", adiantou à Lusa.A
greve é apoiada pela coligação de esquerda Nova União Popular Ecológica
e Social, que integra a França Insubmissa, os socialistas, os
ecologistas e os comunistas, assim como por outras forças de esquerda
que não estão representadas na Assembleia Nacional. Já
a direita, ou seja Os Republicanos, debatem internamente se apoiam esta
proposta do Governo de Borne, sendo que só o seu voto pode viabilizar a
reforma no hemiciclo, dado que o partido de Macron não dispõe de
maioria parlamentar.A alternativa, que
desagrada à classe política francesa em geral, é forçar a aprovação
desta reforma através do artigo 49.3, que permite ao Governo francês
fazer aprovar determinados textos sem votação formal no Parlamento. Este
é um passo que os sindicatos consideram "antidemocrático"."É
um ato antidemocrático muito forte. O 49.3 já fui usado várias vezes
desde o início do mandato, em junho de 2022, e contorna a oposição na
Assembleia Nacional. Se usam este artigo, é porque o Governo não tem
argumentos para convencer nem a sociedade nem os outros partidos de que
esta é uma boa reforma para o país", declarou Boris Plazzi.Esta
lei começará a ser discutida na Assembleia Nacional em fevereiro e
continuará a ser apreciada até ao final da sessão legislativa em junho.Nessa
altura, o Governo poderá recorrer ao artigo 49.3 e aplicar o novo
sistema já a partir de setembro de 2023, caso não tenha o apoio para a
provação no hemiciclo.