Gregório Duvivier regressa aos Açores com 'O Céu da Língua'

15 de mar. de 2026, 09:10 — Susete Rodrigues

Como é que define o espetáculo ‘O Céu da Língua’?É uma ode à língua portuguesa, mas não só. É uma ode ao facto de falarmos. A língua é um milagre. A língua é a nossa primeira ‘tecnologia’, é o que nos possibilita existir em grupos. Então, não existiria coletividade sem língua, não existiria nada. É, por isso, uma ode ao facto de termos esta ‘tecnologia’ revolucionária. E, claro, ela é muito engraçada. O espetáculo é também uma comédia em torno das palavras.Para si, como é que foi escrever ‘O Céu da Língua’?Escrever ‘O Céu da Língua’ foi muito gostoso e divertido, porque envolveu uma pesquisa sobre as palavras, sobre o som das coisas. Às vezes não paramos para pensar nisso, na graça que têm as palavras. Então envolveu uma pesquisa sobre isso.... Olha que palavra gostosa, ‘sussurrar’... ‘sussurrar’ é uma palavra necessariamente sussurrada... borbulhas... é uma palavra que parece que tem bolhas e por aí vai. A temática da língua é algo que gosta de trabalhar?A temática da língua é o meu assunto preferido. Gosto muito de falar dessa temática porque acho que tem muita poesia e muito humor também. Esse assunto nos possibilita transitar entre a poesia e o humor, porque a atenção para o som das coisas pode ser cómica e poética. A criança adora brincar com o som das coisas porque a criança é uma poeta em estado natural e também um palhaço. Acho que poeta e palhaço se unem aí, se unem no deslumbramento com a palavra. Desde da estreia que ‘O Céu da Língua’ tem sido um sucesso, com salas esgotadas e tem recebido boas críticas. O que significa para si ver as salas esgotadas e o público a gostar do seu trabalho?Fico muito comovido com o público lotando coliseus em torno da poesia, porque sempre ouvi falar que a poesia era uma arte muito obsoleta, muito desinteressante para a maioria das pessoas, nunca comoveu multidões. Acredito, de verdade, do fundo do coração, que a poesia tem uma vocação popular. Desde o seu nascimento, as pessoas sabiam a ‘Ilíada’ de cor, na Grécia Antiga, elas sabiam a ‘Odisseia’ e acho que o país se organizou em torno dessas obras. No caso de Portugal existe os ‘Lusíadas’, de Luís Vaz de Camões, que não era só uma obra académica, era uma obra popular, comovente. Então, essa peça é uma aposta na vocação popular da poesia e o sucesso dela deixa-me muito feliz, porque prova a contínua popularidade do assunto, que é a minha maior paixão. Iniciou há dias uma digressão pela Europa. O que espera trazer de cada sala por onde vai passar?Acho que cada sala vai trazer uma particularidade porque cada sala vai ser para um público diferente e sempre damos uma adaptação, sempre fazemos uma brincadeira com o público local, porque cada um tem uma relação com a língua portuguesa, e a peça vai sendo acrescentada consoantes os lugares que passamos. Por exemplo, fui à Bahia e lá aprendi uma expressão maravilhosa, que é uma hora de relógio. O baiano fala: ‘eu fiquei esperando uma hora de relógio’. Olha que boa expressão... é como houvessem outras horas, não é? Vou para o sul do Brasil e aprendo que eles falam ‘bá-chê’, eles têm umas sonoridades muito engraçadas. Portanto, cada cidade que formos, acrescentamos expressões e  sonoridades ao espetáculo.Tenho a certeza que os Açores também vão acrescentar muitas coisas ao nosso espetáculo.Em 2024, estreou esta peça em Lisboa. Porquê regressar com a mesma peça a Portugal?Essa peça foi pensada para Portugal, porque amo esse país, amo ir a Portugal, então escrevi para o meu produtor, Hugo Nóbrega e ele propôs a peça para o Teatro Aberto, em Lisboa. Desde então, tenho a levado pelo Brasil inteiro esta peça, mas ela foi feita para Portugal. Por quê? Porque os portugueses são apaixonados pela língua que falam. Acho que tem algo que nos une aí e gosto muito desse assunto. Fiz uma peça com o Ricardo Araújo Pereira intitulada ‘Um português e um brasileiro entram num bar’, inclusive estivemos em São Miguel, no Teatro Micaelense e foi uma delícia.Que expectativas é que tem para a estreia de ‘O Céu da Língua’ nos Açores?Estou muito feliz de ir para os Açores pela primeira vez com esse espetáculo. Como disse, já estive ai com o Ricardo Araújo Pereira, para falar sobre a língua portuguesa e foi muito bom porque os Açores têm um português muito especial, muito gostoso. Amo o sotaque micaelense, que é o que conheço um pouco mais, mas não só o sotaque, também a variedade de sotaques que existe na ilha de São Miguel e nas outras ilhas que, para mim, é uma delícia. Para quem gosta das diversas variantes da língua portuguesa, as nove ilhas dos Açores são uma maravilha.