Gravações de Amália Rodrigues candidatas a "Memória do Mundo" da UNESCO
6 de out. de 2021, 12:05
— Lusa/AO Online
“No
ano em que se celebra o centenário de Amália Rodrigues, queremos
sublinhar a importância e o valor universal excecional do registo da
sua voz e da sua música, fazendo jus à sua carreira de dimensão mundial,
através do reconhecimento pela Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) das gravações da cantora como
“Memória do Mundo””, afirma a ministra Graça Fonseca, em comunicado.A
candidatura será promovida através da equipa do Arquivo Nacional do
Som, em colaboração com a empresa Edições Valentim de Carvalho,
proprietários da coleção de fitas-magnéticas gravadas pela intérprete
entre 1951 e 1990 e de outras gravações, algumas nunca publicadas, como
ensaios, diferentes ‘takes’, experiências de gravação, gravações
informais, entre outras.Segundo
a tutela, esta candidatura surge na sequência do trabalho há muito
desenvolvido pela Valentim de Carvalho na preservação e divulgação deste
fundo documental, e do início de um trabalho conjunto com a equipa do
Arquivo Nacional do Som. O
ministério sublinha que esta candidatura não só afirma a importância do
fundo documental como reforça, na prática, a visibilidade destes
documentos.Amália
Rodrigues, intérprete associada a um repertório português como é o
Fado, foi responsável pelo conhecimento e projeção deste género
além-fronteiras, sem ter deixado de se preocupar com a sua renovação. Quando
fala em fronteiras, o Governo refere-se a “todas as fronteiras”,
ultrapassando as meramente territoriais, que ficaram marcadas pela
apresentação da cantora “ao vivo” e pela publicação dos seus discos
“praticamente em todo o mundo, da Austrália ao Azerbaijão”, com atuações
tanto em palcos de pequenas aldeias italianas, como no Lincoln Center
de Nova Iorque.Amália
Rodrigues ultrapassou também as fronteiras linguísticas, interpretando
repertório em diversas línguas, como português, castelhano, italiano,
francês, ou inglês, mas sobretudo as fronteiras do género musical,
“afirmando-se como intérprete do fado mas também das rancheras
mexicanas, do flamenco ou da canção italiana, entre outros repertórios,
inspirando autores como Aznavour ou Vinicius de Moraes que para ela
compuseram”.Graças
a uma capacidade musical “fora de série”, a cantora “revolucionou o
género nas suas múltiplas dimensões: musical, poética, estilo
interpretativo”. A
candidatura das gravações de Amália Rodrigues à UNESCO tem uma forte
vertente patrimonial, de reconhecer a importância universal destes
documentos, de os preservar e divulgar.Mas
o Ministério da Cultura pretende também “reafirmar inequivocamente o
compromisso nacional de desenhar, implementar e fortalecer uma política
consolidada para o património sonoro”. “Estamos
a trabalhar para instalar as infraestruturas tecnológicas do Arquivo
Nacional de Som, encerrando definitivamente uma história já com 85 anos.
E estamos a fazê-lo e vamos sempre fazê-lo com todos os agentes
detentores de património sonoro”, destaca o comunicado.O
programa “Memória do Mundo” é uma iniciativa da UNESCO que visa realçar
e preservar documentos ou conjuntos de documentos com especial
significado e valor para a humanidade, documentos (também fonográficos)
com “importância mundial e valor universal excecional”.As
primeiras inscrições tiveram lugar em 1997, e até hoje já foram
inscritos como “Memória do Mundo” mais de 400 documentos ou conjuntos de
documentos, da Magna Carta, à Bíblia de Gutenberg.Portugal
inscreveu até hoje 10 documentos, entre os quais o Tratado de
Tordesilhas, o Diário da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, a
Carta de Pêro Vaz de Caminha, ou o registo de vistos atribuídos pelo
cônsul português Aristides Sousa Mendes.No
domínio do património documental sonoro, são vários os documentos
inscritos: o disco com a gravação do apelo à resistência francesa na II
Guerra Mundial pelo General de Gaulle; as coleções históricas dos
arquivos de som de Viena, de Berlim e de São Petersburgo; as 103
fitas-magnéticas com a gravação do julgamento de Frankfurt - Auschwitz;
ou uma coleção de discos comerciais de Carlos Gardel. A candidatura das gravações de Amália Rodrigues será a primeira candidatura portuguesa de um documento audiovisual.