Governos que usam racismo para fins políticos "brincam com o fogo"
21 de mar. de 2023, 17:19
— Lusa
Para assinalar o Dia
Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, Guterres falou
perante a Assembleia Geral da ONU, onde alertou que a discriminação
racial e os "legados da escravidão e do colonialismo continuam a
arruinar vidas, a marginalizar comunidades e a limitar oportunidades",
impedindo que milhares de milhões de pessoas alcancem todo o seu
potencial.Apontando o dedo a governantes, o
ex-primeiro-ministro português indicou que a "tolerância oficial" ao
racismo pode alimentar as tensões e desencadear violência e crimes
atrozes, como o "genocídio"."O racismo não
é inato, mas uma vez aprendido, pode assumir um poder destrutivo
próprio. (...) Isso aconteceu catastroficamente ao longo da história.
Não precisamos de lembrar que o racismo e a discriminação racial podem
ser passos no caminho do genocídio", frisou."A
xenofobia, o preconceito e o discurso de ódio estão a aumentar. Líderes
políticos usam migrantes como bodes expiatórios, com impacto
devastador. Influenciadores da supremacia branca lucram com o racismo
nas redes sociais. Algoritmos de inteligência artificial amplificam e
digitalizam a discriminação racial", disse.O
secretário-geral observou que após um período de maior conscientização
global sobre o racismo, alguns países enfrentam agora uma reação
violenta contra políticas e práticas antirracistas.Nesse
sentido, Guterres defendeu a implementação de iniciativas e programas
para eliminar a discriminação racial e proteger os direitos das
minorias, classificando-os como investimentos na prevenção de crises e
na paz."Precisamos de resistir e reverter
essas tendências, condenar e eliminar a discriminação racial em todas as
suas formas. Devemos agir para combater o racismo onde e quando ele
surgir, inclusive através de canais legais", apelou.Ao
marcar o 75.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos,
o líder das Nações Unidas instou todos os Governos a adotar, até
dezembro deste ano, um plano de ação nacional abrangente e com prazo
determinado para combater o racismo e a discriminação racial."Esses
planos devem incluir legislação e políticas antidiscriminação
informadas por provas e dados. (...) Apelo hoje a todos os Estados para
que ratifiquem a Convenção e implementem as suas obrigações e
compromissos sem demora. Devemos transformar a vontade política em ação
abrangente, com aqueles que sofrem racismo e discriminação racial no
centro", sublinhou.O número de pessoas que
tiveram de deixar as suas casas devido a perseguições, guerras e
violações de direitos humanos ultrapassou, em 2022, os 100 milhões.O
Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial
assinala-se, anualmente, a 21 de março. Este dia foi estabelecido pela
Assembleia Geral das Nações Unidas em outubro de 1966.Também
o presidente da Assembleia Geral da ONU, Csaba Korosi, assinalou o Dia
Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, homenageando
aqueles que lutaram e continuam a combater todas as formas de racismo e
discriminação.O diplomata húngaro reforçou
que os legados dos sistemas racistas da escravatura, do 'apartheid' e
da segregação ainda podem ser sentidos "nas nossas comunidades,
instituições e mentes"."Como um vírus, o
racismo sofre mutações e adapta-se a diferentes tempos e contextos.
Diz-se que 'o racismo é como um Cadillac, há um modelo novo todos os
anos'. De fato, as suas manifestações e sintomas podem mudar, mas a
amplitude dos seus danos permanece intacta", reconheceu.Para
Korosi é fundamental regulamentar as redes sociais, que podem ser
usadas para difundir campanhas de violência extrema e que podem chegar
longe, como o fomento do genocídio."Governos
e empresas de tecnologia devem trabalhar juntos para regulamentar as
plataformas virtuais e conter o ódio onde quer que apareça e em todos os
idiomas em que aparece", apelou.