Governo restringe especialidades que podem prescrever medicamentos para a diabetes
10 de abr. de 2025, 16:59
— Lusa/AO Online
O Governo
justifica esta medida com “as dificuldades amplamente reconhecidas no
acesso a algumas dessas tecnologias de saúde por pessoas com 'diabetes
mellitus', bem como os recentes relatos sobre o acesso e utilização
indevida dessas mesmas tecnologias, que têm comprometido a sua
disponibilidade para aqueles que delas efetivamente necessitam”.
Em causa está a disponibilidade dos medicamentos da classe dos
agonistas dos recetores GLP-1 (semaglutido, dulaglutido, liraglutido e
exenatido), onde se inclui o Ozempic, desenvolvido para tratar a
diabetes tipo 2, mas que está também a ser usado para combater a
obesidade e ajudar à perda de peso, e o sensor para determinação de
glicose intersticial. O Governo afirma
que “a portaria visa regular e corrigir essas distorções, promovendo um
acesso efetivo e adequado a essas ferramentas essenciais à saúde”. “É
obrigação do Estado assegurar que as pessoas com 'diabetes mellitus',
em todas as suas variantes, possam usufruir das tecnologias necessárias
para o controlo e tratamento da doença, de forma plena e sem obstáculos,
respeitando os princípios da acessibilidade e equidade”, sublinha a
portaria assinada pela secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, que
entra em vigor na primeira quinzena de agosto.Segundo
o despacho, a prescrição destes medicamentos, comparticipados pelo
Estado em 90%, e do sensor, com comparticipação máxima de 85%, deve
“conter menção expressa ao presente regime excecional de comparticipação
e apenas pode ser feita por médicos especialistas em endocrinologia e
nutrição, medicina interna, pediatria e medicina geral e familiar”.
Contactado pela agência Lusa, o presidente da Associação Protetora
dos Diabéticos de Portugal (APDP), José Manuel Boavida, afirmou que, “em
princípio, tem todo o sentido que quem segue as pessoas com diabetes,
seja quem passa os medicamentos”. “Tenho
dúvidas sobre a capacidade de controlo desta situação. Como temos
visto, tem havido múltiplos colegas de várias especialidades a passarem
[receitas], mas é uma boa intenção se isto estiver ligado a consultas
organizadas de diabetes, consultas multidisciplinares, consultas onde as
pessoas possam ser mais ensinadas a controlar e a acompanhar a sua
diabetes”, defendeu. Mas, vincou,
“se isso aumentar a acessibilidade aos medicamentos e aos sensores, que é
o que está aqui em jogo, as pessoas ficarão extremamente satisfeitas
com isso”. Para José Manuel Boavida, o
despacho “é incompleto” na resolução do problema da obesidade, uma vez
que estes medicamentos são “extremamente eficazes em pessoas com excesso
de peso e com obesidade simples”.
Recordou que a APDP tem defendido que os doentes obesos deviam ter
acesso a estes medicamentos com uma comparticipação a determinar pelo
Estado. “A portaria tenta resolver o
problema da acessibilidade, controlando quem é que pode prescrever, e
isso faz algum sentido, ao profissionalizar e especializar o seguimento
destas pessoas, mas deixa de fora a resolução do problema das pessoas
com um índice de massa corporal inferior a 35 que precisam dos análogos
do GLP-1, e as pessoas com diabetes tipo 2 que podem precisar dos
sensores de glicemia”, realçou o especialista.