Governo Regional avalia parceria com privado para a hemodiálise
22 de out. de 2025, 11:24
— Daniela Arruda/Ana Carvalho Melo
A possibilidade de o serviço de hemodiálise do Hospital Divino Espírito
Santo (HDES) passar a ser realizado por clínicas privadas foi anunciada, após a audiência entre a Associação Portuguesa de Insuficientes
Renais (APIR) e a secretária regional da Saúde. Até lá, as instalações
do HDES serão ampliadas para responder ao aumento do número de doentes
com insuficiência renal: “Está já concluída a instalação de mais dois
postos na estação de águas, o que permite aumentar a capacidade para
mais 12 utentes, até que esta situação fique definida”, afirma Mónica
Seidi, secretária regional da Saúde. Osório Silva, presidente da
APIR, explica que as obras feitas nos serviços de hemodiálise “são
soluções de remendo, numa infraestrutura que está a esgotar a sua
capacidade de resposta”. O número de doentes com insuficiência renal nos
Açores, especialmente na ilha de São Miguel, tem vindo a crescer e
prevê-se um aumento anual de 10%.Além disso, os recursos humanos não
são os adequados para responder às necessidades dos doentes, existindo
falta de médicos nefrologistas e enfermeiros: “Sabemos que há um esforço
em recrutar mais médicos, mas os resultados não têm sido os esperados”
acrescenta, sublinhando que “os serviços e a infraestrutura estão
desajustados às necessidades atuais”, afirma o presidente.Quanto à
possível externalização do serviço, Osório Silva lamenta, “não por uma
questão ideológica, mas clínica”. Um doente que faça tratamento numa
clínica fora do hospital, em caso de intercorrência, terá de ser
transportado de urgência para o hospital: “É, portanto, completamente
diferente em termos de qualidade e cuidados de saúde”.Ainda assim, a
APIR está disponível e pretende fazer parte do processo de transição:
“Face aos nossos 47 anos de experiência a nível nacional,
disponibilizamo-nos para acompanhar o processo, de modo a salvaguardar
os interesses dos doentes quando forem discutidos os protocolos entre o
Governo Regional e a empresa responsável pelo serviço”, refere.O
presidente reconhece que esta é uma solução que não será implementada de
imediato e que, infelizmente, é um processo que vai demorar: “Para nós,
deveria ser já amanhã, porque é uma necessidade”, sublinha.Prevê-se
que, quando o serviço for realizado por clínicas privadas, a capacidade
de resposta aumente, pois para a clínica será uma fonte de rendimento:
“A hemodiálise existe em todo o mundo, até em cruzeiros, é um negócio na
área da saúde”, explica Osório Silva. Por isso, acredita que será
possível responder às necessidades dos emigrantes que regressam à ilha,
bem como de pessoas do continente e estrangeiros em épocas de maior
afluência, como o verão. Outra preocupação da APIR prende-se com a
demora na inscrição dos utentes nas listas de espera para transplante:
“É uma grande preocupação o facto de os doentes em hemodiálise demorarem
demasiado tempo a ser inscritos na lista ativa para transplante”,
afirma o presidente da APIR. Atualmente, há doentes à espera há mais de
dois anos, quando, na prática, o ideal seria cerca de seis meses.Sobre
as preocupações da APIR, Mónica Seidi garante que tanto a Secretaria
Regional da Saúde como o HDES procurarão formas de facilitar o acesso e
assegurar que os doentes continuem a ter acesso ao serviço regional de
saúde. Quanto à falta de recursos humanos, a governante referiu que o
procedimento concursal para contratar 30 enfermeiros no HDES já está
concluído. Relativamente aos atrasos na transferência dos doentes para a
lista ativa de transplantes, Mónica Seidi admitiu não estar informada,
mas acredita que se trata de questões de organização interna do HDES.Osório
Silva sublinha que “o doente com insuficiência renal, será sempre um
doente crónico, mesmo após transplante. O doente renal está dependente
do Serviço Regional de Saúde até ao fim da vida, não há outra hipótese. A
nossa reivindicação é que haja cuidados de saúde eficientes e eficazes
independentemente de quem governa”, acrescentando: “estamos aqui para
denunciar quando os cuidados de saúde falham, mas também para fazer
parte da solução”.