Governo Regional acusa Segurança Social de tratar açorianos como "trabalhadores de segunda"
29 de dez. de 2021, 09:33
— Lusa/AO Online
“Para o
instituto de informática da Segurança Social, os trabalhadores do Pico
são trabalhadores de segunda. Primeiro resolvem a situação urgente,
segundo eles dizem, dos [trabalhadores] nacionais e esta, que é crónica,
do Pico, que resulta desde 2018, ainda vão aguardar e daqui a três
meses é que vão inserir os dados no sistema”, afirmou, em declarações à
Lusa, o vice-presidente do executivo açoriano, Artur Lima.O
governante, que tutela a Solidariedade Social nos Açores, falava, em
Angra do Heroísmo, à margem de uma reunião com os dirigentes do
Sindicato das Indústrias Transformadoras, Alimentação, Comércio e
Escritórios, Hotelaria e Turismo (SITACEHT) dos Açores.Em
maio de 2018, a conserveira Cofaco, dona do atum Bom Petisco, encerrou a
fábrica da ilha do Pico, despedindo 162 trabalhadores, com o
compromisso de abrir uma nova fábrica até janeiro de 2020, mas,
entretanto, desistiu do projeto.Em
setembro de 2020, foi aprovado na Assembleia da República um projeto de
lei que previa a criação de um programa especial de apoio social para
os ex-trabalhadores da Cofaco do Pico, medida que já tinha constado de
um projeto de resolução aprovado em 2018 e tinha sido integrada no
Orçamento do Estado para 2020.A
lei foi publicada em 11 de novembro de 2020 e regulamentada em 24 de
agosto de 2021, mas os trabalhadores continuam sem acesso às majorações.Segundo
o vice-presidente do Governo Regional, o atraso prende-se com a demora
na introdução dos dados dos ex-trabalhadores da Cofaco no sistema, por
parte do instituto de informática da Segurança Social.“Trata-se
apenas de inserir os dados no sistema informático da Segurança Social e
isso só quem pode fazer é o instituto de informática nacional”,
avançou, acrescentando que “sem estes dados não pode haver pagamentos”
das majorações de apoios sociais.Artur
Lima disse que desde março já pediu “várias reuniões” à ministra do
Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, mas “nem
sequer” obteve resposta.O
Instituto de Segurança Social dos Açores (ISSA) também já fez “várias
tentativas” de contacto com a Segurança Social desde maio e a resposta
só chegou em dezembro.“A
resposta que nos deram no email de 14 de dezembro é que, primeiro, vão
tratar das situações nacionais e que daqui a três meses voltam a
reavaliar a situação dos trabalhadores da Cofaco do Pico”, adiantou o
governante.O
vice-presidente do executivo açoriano assegurou que o ISSA já cedeu os
dados dos beneficiários “há mais de seis meses” e considerou
“inaceitável” a “falta de respeito” da Segurança Social pelos
trabalhadores dos Açores.Também o coordenador do SITACEHT/Açores, Vítor Silva, considerou “lamentável” que as majorações ainda não tenham sido aplicadas.“O
decreto regulamentar n.º 5/2021 é de 25 de agosto. O departamento
informático já teve mais do que tempo para proceder de forma correta à
majoração dos ex-trabalhadores da Cofaco. Não há nenhuma desculpa, não
há nenhuma explicação possível sobre esta matéria”, afirmou.Dos
162 trabalhadores despedidos, em maio de 2018, o sindicalista estima
que cerca de oito dezenas estejam em condições de ter acesso a estas
majorações, muitos dos quais em vias de perder o subsídio de desemprego.“Os
trabalhadores não podem ficar à espera para daqui a três meses por uma
nova avaliação do departamento informático sobre esta matéria. Os
trabalhadores da Cofaco já esperaram demasiado tempo. Não é aceitável
solicitar a estas pessoas, que estão a passar por situações extremamente
difíceis, que ainda esperem mais tempo”, salientou.Na
quarta-feira, os dirigentes sindicais vão reunir-se com o Representante
da República para a Região Autónoma dos Açores, para apelar a uma
intervenção do Presidente da República.“Este
problema e a dimensão que ele tem tomado não deixam uma boa imagem à
classe política e, portanto, nós vamos pedir mesmo a intervenção da
figura máxima do país, o Presidente da República, para ver se existe
algum bom senso nessa matéria e se de facto o mais rapidamente possível
se aplica a lei”, apontou Vítor Silva.