Governo francês pressionado a acelerar luta contra a sujeição química
12 de mai. de 2025, 12:49
— Lusa/AO Online
“A
nossa mensagem é clara: se queremos travar este fenómeno, temos de pôr
em prática uma verdadeira política de Estado com os recursos que lhe
estão associados”, declarou à agência noticiosa France-Presse Sandrine
Josso, deputada, co-relatora com Véronique Guillotin, senadora, desta
missão lançada em abril de 2024 pelo Governo de Gabriel Attal.O
caso Pelicot, que ocorreu em Mazan (sudeste de França) e se tornou o
símbolo da subjugação química das violações sofridas por Gisèle
Pelicot, sedada pelo marido Dominique e sujeita a violações de dezenas
de homens que este recrutava pela internet, e cujas repercussões se
fizeram sentir em todo o mundo, “criou um eletrochoque", considerou.“Não
podemos continuar a fechar os olhos ou a tapar os ouvidos, não podemos
continuar a permitir-nos ter uma política de “baixo custo” em relação às
vítimas”, acrescentou Sandrine Josso.No relatório,
que será apresentado hoje ao Governo do primeiro-ministro François
Bayrou, as duas responsáveis propõem cerca de cinquenta recomendações,
das quais 15 devem ser “aplicadas prioritariamente” a partir deste ano.Em
particular, recomendam o lançamento anual de uma vasta campanha de
sensibilização dirigida a toda a população, bem como “um reforço dos
recursos” para a educação sobre a vida afetiva e sexual nas escolas.Além
disso, a experiência de reembolso do custo das amostras biológicas
colhidas sem queixa deve ser alargada a todos os casos e o sigilo médico
deve ser dispensado em casos de sujeição química e de vulnerabilidade.O
grupo de trabalho recomenda igualmente a introdução de kits de recolha
de amostras biológicas, em vez de kits de deteção “que não oferecem
quaisquer garantias aos seus utilizadores”, defendem.A
apresentação deste relatório ocorre cinco meses após o veredito do
processo de violação de Mazan, no qual Dominique Pelicot foi condenado a
prisão perpétua (20 anos que correspondem à pena máxima para este tipo
de crime em França) por ter drogado e entregue a sua mulher a dezenas de
desconhecidos que recrutou na Internet para a violaram entre 2011 e
2020.Todos os outros 50 arguidos foram
condenados no primeiro julgamento, que decorreu entre setembro e
dezembro de 2024 em Avignon (sul de França).O
julgamento, que teve grande repercussão mediática porque a vítima se
recusou a ter um julgamento à porta fechada para que “a vergonha mude de
lado”, levantou o véu sobre um fenómeno até então pouco conhecido.De
acordo com as estimativas oficiais francesas, em 2022, o Centro de
Referência para as Agressões Facilitadas por Substâncias (CRAFS)
analisou 1.229 prováveis submissões e vulnerabilidades químicas.