24 de fev. de 2023, 09:32
— Henrique Botequilha /Lusa/AO Online
Em
entrevista à agência Lusa a propósito do aniversário da invasão da
Ucrânia, iniciada a 24 de fevereiro do ano passado, o ministro dos
Negócios Estrangeiros português, João Gomes Cravinho, afirmou que os
acontecimentos daquela madrugada não foram totalmente uma surpresa, uma
vez que, “ao longo de vários meses e, com cada vez maior intensidade”,
se avolumavam os sinais desta agressão.Na
reconstituição da daquele dia, João Gomes Cravinho, na altura ministro
da Defesa, recordou que se manteve “em estreita comunicação com o
ministro Augusto Santos Silva [então chefe da diplomacia], com o
primeiro-ministro, e com o Presidente da República, e que, apesar dos
indícios de uma invasão iminente, esta foi recebida com “um sentimento
de incredulidade” pelas autoridades portuguesas.“Faltava
o raciocínio, faltava compreender por que razão é que a Rússia estava a
cometer um erro tão grave”, comentou Cravinho, adicionando que, tal
como outros observadores e, no plano político nacional, “havia
dificuldade em conciliar os sinais que se estava a observar com uma
interpretação racional daquilo que era a atitude russa”.Como
primeira reação, as autoridades de Lisboa foi acautelar a segurança dos
cidadãos portugueses, havendo já um plano e um mapeamento dos locais
onde se encontravam, tendo sido enviados militares e a adida militar na
Turquia para apoiar a retirada. Nesses
primeiros momentos da invasão, face ao poderio militar das forças de
Moscovo, o chefe da diplomacia portuguesa reconheceu “havia a ideia de
que muito provavelmente a Ucrânia capitularia e os russos teriam
capacidade para tomar Kiev e os centros principais de decisão do país”.Mas,
no plano político, “não havia claramente um plano para diálogo com a
Rússia, depois da captura de Kiev e instalação de um governo 'fantoche',
que era o plano de [Vladimir} Putin”, Presidente russo, num período de
“muito pessimismo” e de incerteza. “De
qualquer maneira, do lado ocidental, aquilo que havia do lado da NATO,
era a convicção de que era importante impedir que, através da força das
armas, Putin tivesse sucesso na reorganização do espaço de segurança na
Europa, na Europa oriental”, recordou, adicionando que os acontecimentos
posteriores não confirmaram a superioridade russa nem a conquista da
capital ucraniana em poucos dias, como o Kremlin ameaçava.E
essa, para o ministro dos Negócios Estrangeiros, “foi uma outra
surpresa”, no sentido de que “a capacidade militar dos russos, afinal,
era muito inferior àquilo que imaginava e àquilo que o Presidente Putin
imaginava”.O líder russo – “hoje
percebemo-lo -, foi alvo de informação enganosa por parte dos seus
próprios serviços militares sobre a sua capacidade“ e o chefe do Estado
Maior das forças armadas russas, general [Valery] Gerasimov, que era
considerado como “um grande génio militar”, acabou com “uma reputação
que não se parece nada com isso”.Cerca de
um mês após a invasão, as forças russas não romperam as linhas de defesa
de Kiev e abandonaram as imediações da capital para se concentrarem nas
frentes do sul do país, onde perderam território entretanto
conquistado, e no leste, palco de violentos combates nos últimos meses,
com poucos ganhos e à custa de pesadas baixas de ambos os lados. Este
é outro “ponto muito interessante que vale a pena explorar”, segundo
João Gomes Cravinho, questionando: “Por que é que se sobrestimou a
capacidade russa? O que é que aconteceu aos investimentos que foram
feitos nas forças armadas russas? Será que chegaram ao seu destino, será
que foram desviados para outros propósitos?”.