Governo espanhol quer incluir direito ao aborto na Constituição
3 de out. de 2025, 16:34
— Lusa/AO Online
O
líder do Governo escreveu na rede social X que o executivo espanhol vai
"levar ao parlamento uma proposta para constitucionalizar o direito à
interrupção voluntária da gravidez, em linha com a jurisprudência do
Tribunal Constitucional".Sánchez prometeu
ainda uma revisão à lei que regula a interrupção voluntária da gravidez
(IVG) em Espanha para "impedir que se dê informação enganosa ou que
contraria a ciência sobre o aborto".Este
anúncio surge depois de o maior partido da oposição, o Partido Popular
(PP, direita), ter aprovado esta semana uma proposta apresentada na
assembleia municipal de Madrid pelo Vox, de extrema-direita, relacionada
com a IVG.A proposta aprovada estabelece
que em Madrid os profissionais de saúde têm de informar as mulheres que
solicitam a IVG de um alegado "síndrome pós-aborto", que poderia levar
ao consumo de drogas e álcool a pensamentos suicidas, assim como a um
"aumento de cancros no aparelho reprodutor feminino".Este
alegado "síndrome pós-aborto" não existe e não está validado pela
ciência, como reconheceu posteriormente o presidente da câmara, José
Luis Martínez-Almeida, garantindo que os profissionais de saúde não
serão obrigados a referi-lo às mulheres que pretendem abortar.O
texto do Vox, aprovado pelo PP, dizia que o alegado "síndrome
pós-aborto é deliberadamente escondido", em especial, em Espanha, e que a
IVG é "um grande negócio para a ideologia que o apoia e promove: o
feminismo".No meio da polémica e ainda
antes do recuo de Martínez-Almeida, a direção nacional do PP, presidida
por Alberto Núñez Feijóo, disse apoiar o autarca e a estrutura do
partido de Madrid, argumentando que “a informação nunca é um problema”."O
PP decidiu fundir-se com a extrema-direita. Eles é que sabem. Podem
fazê-lo, Mas não à custa das liberdades e dos direitos das mulheres",
escreveu Sánchez no X, para justificar as duas propostas com que o
Governo vai avançar no parlamento.O PP já
rejeitou a possibilidade de apoiar a inclusão do direito à IVG na
Constituição, o que inviabiliza a sua aprovação, por causa da maioria
necessária no parlamento para alterar a lei fundamental do país.O
maior partido da oposição acusou também Sánchez de estar a
aproveitar-se deste tema, para criar uma nova "cortina de fumo" para
afastar as atenções dos problemas do Governo e das polémicas que
envolvem o executivo e familiares do primeiro-ministro relacionadas com
suspeitas de corrupção.França é atualmente
o único país que reconhece de forma explícita o direito à IVG na
Constituição, na sequência de uma alteração ao texto introduzida no ano
passado.A atual lei do aborto em Espanha é
de 2010 e estabelece o acesso gratuito à IVG e a pedido da mulher até
às 14 semanas de gestação. Por motivos de
saúde da mulher ou do feto, a IVG pode ser solicitada até às 22 semanas.
Em caso de doença e anomalia extremamente grave do feto pode ser feita
após este prazo.