Governo dos Açores diz que Lajes não pode ser "uma base adormecida"
23 de abr. de 2024, 09:45
— Lusa/AO Online
“Já
se provou que os Açores quando é necessário cá estão. Agora o que não
podemos ter aqui e não podemos aceitar é uma base adormecida para
acordar só quando é preciso. Isso nós não queremos aceitar, nem vamos
aceitar. É um dos pontos que os Açores têm de fazer sentir ao Governo da
República e o Governo da República tem de fazer sentir, no âmbito das
suas competências, ao Governo norte-americano e à NATO", afirmou, em
declarações aos jornalistas.Artur Lima
falava, na vila das Lajes, na ilha Terceira, à margem de uma conferência
com o título “Portugal é os Açores – EUA e Açores na Guerra Fria
(1945-1965)”, proferida pelo professor da Universidade Estadual do
Ceará, no Brasil, Tácito Rolim, doutorado em História.A
iniciativa foi organizada no âmbito do plano de estudos e trabalhos
para a criação do Centro Interpretativo da Base das Lajes,
desenvolvido em colaboração com o Instituto Histórico da Ilha Terceira
(IHIT), desde finais de 2023.Na abertura
da conferência, o vice-presidente do executivo açoriano lembrou a
redução militar dos EUA na base das Lajes, em 2015, e a contaminação dos
solos e aquíferos, que tem exigido "demonstração de força, firmeza e
diálogo para que o assunto seja tratado com o cuidado que merece”, ainda
que destacando “alguns passos significativos”.Por
outro lado, defendeu que, apesar de se ter questionado o valor
estratégico da base das Lajes, devido aos avanços tecnológicos e à
competição crescente entre EUA e China, os Açores “jamais deixarão, de
ser um ativo fulcral para a política de defesa e segurança do Ocidente”.“A
geopolítica não é estática e as conjunturas evoluem e alteram-se. O que
vemos atualmente é um recentrar de atenções no Ocidente e, por
acréscimo, no Atlântico, em virtude da proliferação de conflitos
militares, seja na Ucrânia, seja no Médio Oriente”, apontou.Artur Lima reivindicou, no entanto, contrapartidas para os Açores.“Esta
base não é uma peça de museu, mas um reabilitado ativo para o país,
para os EUA e para a NATO, que os Açores deverão tirar o devido partido
para o seu desenvolvimento regional e local. Porque não haja dúvidas de
que queremos servir e também queremos, todavia, ser servidos com justas e
merecidas contrapartidas”, vincou.Para o
governante, é preciso “colocar na agenda internacional a importância
geoestratégica da base das Lajes” e o centro interpretativo, que está a
ser planeado, pode dar um contributo.Artur
Lima sublinhou que não se trata apenas da criação de um espaço físico,
mas de um espaço “dedicado à investigação e à produção científica de
novos conhecimentos sobre o papel geoestratégico da região”.Em
novembro de 2023, o Governo Regional assinou um protocolo com o IHIT,
no valor de 40 mil euros, que vigorava até dezembro de 2024, mas o
trabalho terá continuidade, segundo o vice-presidente.“Este
ano termina esta parte do estudo, mas continuará durante o ano de 2025 e
eu presumo que no final do ano esteja terminada a parte teórica. Depois
será desenvolvida toda a informação teórica recolhida pelo instituto
histórico e depois espero que se passe à prática e se materialize
então”, explicou.A comissão científica do
centro interpretativo será constituída por António José Telo, professor
catedrático de História na Academia Militar, Luís Andrade, professor
catedrático de Ciência Política e Relações Internacionais da
Universidade dos Açores, e Tácito Rolim, orador da conferência.O
historiador brasileiro, que descobriu os Açores, por acaso, numa
investigação sobre o arquipélago de Fernando Noronha, destacou a
importância da base das Lajes na Guerra Fria, enquanto "barreira de
proteção da costa leste dos EUA de um eventual ataque soviético" e na
monitorização de uma operação militar norte-americana que testou "a
explosão de artefactos nucleares na alta atmosfera".