Governo defende-se de críticas por naufrágio mortal apontando à UE
Migrações
28 de fev. de 2023, 10:41
— Lusa/AO Online
O
ministro do Interior, Matteo Piantedosi, é foco principal das críticas,
por ter colocado o ónus do desastre de domingo sobre os mais de 60
migrantes que morreram num naufrágio na costa da Calábria, dizendo
que "o desespero [dos migrantes adultos] nunca pode justificar condições
de viagem que ponham em perigo a vida dos filhos”, quando muitas das
vítimas eram crianças e adolescentes.Emanuele
Nannini, chefe de Pesquisa e Resgate da Emergency, uma ONG italiana
ativa em várias zonas de guerra, contrapõe que o naufrágio "é resultado
de escolhas políticas que impedem vias de acesso legais e seguras à
Europa" para os migrantes. "Estamos
indignados com o fato de as questões e causas que levam a essas
migrações não serem abordadas. Muitas pessoas que morreram nesta
tragédia vêm do Afeganistão ou do Iraque, países que conhecemos muito
bem, que vivem uma situação dramática também por causa das guerras que
provocamos e que fizeram com que essas pessoas fossem obrigadas a fazer
essa escolha", afirmou Nannini à Lusa. "Conhecemos bem os países de onde vêm essas pessoas e é impensável fechar os olhos a esses factos", adiantou Nannini. Na
segunda-feira, os Médicos Sem Fronteiras (MSF) classificaram as
declarações dos governantes italianos como uma "chapada na cara" dos
migrantes, ao insinuarem que estes foram responsáveis pela própria
tragédia, por embarcarem numa viagem tão perigosa.Outras ONGs atacam o facto de que as novas regras do governo para as migrações "esvaziaram" as rotas de chegada dos migrantes. Para
a SeaWatch, organização alemã sem fins lucrativos que opera no
Mediterrâneo central, a ausência de uma missão europeia de busca e
salvamento "é um crime que se repete todos os dias". A
nova lei aprovada pelo governo impõe que, depois de um resgate, as ONG
que operam barcos na costa italiana, devem notificar imediatamente as
autoridades e dirigir-se ao porto que lhes é indicado. No
passado, os portos indicados eram principalmente na Sicília, Puglia e
Calábria, regiões do sul da Itália mais próximas das áreas de resgate,
mas há meses que as ONG são desviadas para portos no norte da Itália
(Ancona, Ravenna, Livorno, Civitavecchia) muito longe das áreas de
socorro, portanto afastando os navios durante dias, ou mesmo semanas, do
Mediterrâneo central. Outro foco de
críticas ao Governo tem sido a falta de resgate aos náufragos da
Calabria, feitas nomeadamente por um médico socorrista da zona que
declarou em direto na televisão que "esta tragédia poderia ter sido
evitada" e que "resgatou migrantes com condições de mar muito piores",
mas neste caso "era a vontade precisa do governo" deixá-los morrer. O
ministro do Interior, Piantedosi, respondeu a essas declarações num
comunicado à imprensa dizendo que iria incumbir os advogados do Estado
de avaliar "as gravíssimas declarações falsas" do médico. O
procurador de Crotone, Giuseppe Capoccia, disse que os
magistrados estão a investigar formalmente o naufrágio; sobre
a reconstituição da cadeia de resgate, "não há investigações". "Estamos
a reconstituir todas as etapas desde o avistamento para reconstituir o
que foi feito e compará-lo com o que deveria ter sido feito e o que
parece ter sido feito. Claro que as condições do mar eram terríveis",
adiantou.A suspeita de que algo mais
poderia ter sido feito para salvar os migrantes é agora generalizada e
próximo do local onde se realizou uma vigília, na noite de
segunda-feira, no exterior do pavilhão desportivo onde foram colocados
os corpos dos migrantes mortos, foi colocado um cartaz dizendo: "As
pessoas à mercê do mar devem ser salvas. Assassinos".Claudia
Fusani, jornalista do jornal Il Riformista, disse à Lusa que o governo
Meloni "é populista e está em choque com a realidade". "Essas
pessoas fazem de tudo para fugir [dos seus países], mesmo enfrentando
a morte. Alguém que é o ministro do Interior deve saber disso, mas
parece que [Piantedosi] não tem ideia das condições de onde vêm esses
migrantes", adiantou. O governo italiano
aponta baterias a Bruxelas. A primeira-ministra anunciou na
segunda-feira à noite que escreveu uma carta ao Conselho Europeu (CE) e à
Comissão Europeia "para pedir que o que foi discutido no último CE seja
concretizado imediatamente". Sobre
migrações, o último CE declarou que são "um problema europeu que precisa
de respostas europeias", o que Meloni apresentou como um vingar da sua
política de que a Itália não deve ser deixada a lidar sozinha com a
questão. Para Fusani, contudo, a
reviravolta do CE reivindicada por Meloni não tem razão de ser, pois a
mesma afirmação foi feita inicialmente há quase dez anos, quando mais de
350 pessoas morreram num único naufrágio. "Mas
questão aqui é que somos [em Itália] a porta de entrada para o
Mediterrâneo e, se há migrantes em perigo, é preciso salvá-los", conclui
Fusani.