Governo admite alteração ao Estatuto da Ordem dos Médicos para reforçar supervisão
22 de jul. de 2020, 14:21
— Lusa/AO Online
Numa
audição parlamentar sobre o caso do bebé de Setúbal que nasceu com
malformações, requerida pelo PAN, o secretário de Estado da Saúde,
António Lacerda Sales, afirmou que uma “eventual iniciativa legislativa
nesta matéria, que consagra um poder de reforço de supervisão da ordem”,
deve corresponder a uma alteração ao decreto lei 282/77, que aprovou o
Estatuto da Ordem dos Médicos. A ministra
da Saúde, Marta Temido, explicou por seu turno que “uma eventual
avaliação de uma alteração ao Estatuto da Ordem dos Médicos depende de
iniciativa designadamente da Assembleia da República”.
“É um processo que poderá incluir três aspetos (…) que não podemos
deixar de sublinhar como o nosso contributo para aquilo que é a
melhoria, que tenho a certeza de que todos estamos empenhados em
conseguir”, afirmou. A ministra apontou
depois a concretização da “figura do provedor do doente”, que está
previsto nos estatutos, mas ainda não está materializado, “a ponderação
da inclusão de processos de certificação ou revalidação de
especialidades e subespecialidades e competências”, que “é algo que
existe noutros sistemas de saúde, noutras entidades semelhantes”.
Admitiu ainda a inclusão de “membros leigos” no órgão de supervisão,
designadamente no Conselho Superior, de âmbito nacional, e nos Conselhos
Disciplinares regionais. Segundo a
ministra da Saúde, a inclusão destes membros da sociedade visaria obter
“uma maior transparência e um reforço daquilo que é a vigilância social”
a que estas entidades respondem. “Não
esqueçamos que estamos aqui perante delegações de competências do Estado
em associações públicas profissionais que representam não só os
profissionais, mas acima de tudo o interesse dos cidadãos numa qualidade
especial de exercício de determinadas profissões pela sua relevância
social”, sublinhou. Estas explicações dos
governantes foram suscitadas pela deputada do PAN Bibiana Cunha que
recordou as declarações do bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel
Guimarães, na audição sobre o caso, em que afirmou que este era um
exemplo da falência do controlo do sistema de saúde por parte da
entidade reguladora e que o ministério não tem função fiscalizadora, mas
que tem o dever de zelar pela qualidade, certificar a formação de
normas técnicas de defesa dos doentes e a intervir quando chamado para
isso. “Gostaríamos de saber se da sua
parte se vê a necessidade de uma revisão legislativa para clarificar
competências e se, através do Governo ou do Partido Socialista, tenciona
avançar com alguma proposta nesse sentido”, tinha questionado Bibiana
Cunha, dirigindo-se à ministra da Saúde.
Marta Temido recordou a atuação das autoridades neste caso, lembrando no
entanto que o médico não estava neste processo ao serviço do SNS,
nomeadamente a avaliação realizada pela Administração Regional de Saúde
de Lisboa e Vale do Tejo, que concluiu com um conjunto de recomendações
que foram já implementadas. Por outro
lado, foi posto em prática um plano de fiscalização que implica visitas
ao terreno. “É um plano de fiscalização que optámos por alargar, também
aprendendo com esta circunstância as amargas lições que delas podemos
retirar, a todas as outras administrações regionais de saúde que têm
também elas próprias os seus planos de fiscalização”.O
obstetra Artur Carvalho foi punido com a pena máxima prevista nos
Estatutos da Ordem dos Médicos, ou seja, a expulsão, mas o advogado do
médico disse que iria recorrer da proposta de expulsão" do Conselho
Disciplinar da Ordem dos Médicos.O bebé
Rodrigo nasceu em 07 de outubro de 2019 no Hospital de São Bernardo, do
Centro Hospitalar de Setúbal, com várias malformações graves, como falta
de olhos, nariz e parte do crânio, sem que o médico Artur Carvalho, que
realizou as ecografias de acompanhamento da gravidez, tivesse detetado
ou sinalizado aos pais qualquer problema.O
obstetra que realizou as ecografias numa unidade privada, a Ecosado,
tinha 14 queixas em averiguação na Ordem dos Médicos em dezembro.O
caso do bebé sem rosto levou logo à abertura de um inquérito por parte
do Centro Hospitalar de Setúbal, para apurar se foram efetuados
corretamente todos os procedimentos no parto do bebé.