Governo açoriano recusa intervir no negócio de aquisição de fuelóleo para a EDA
11 de nov. de 2024, 18:28
— Lusa/AO Online
“Não
compete ao Governo Regional substituir-se às empresas, no que diz
respeito à contratação dos meios necessários ao desenvolvimento da sua
atividade”, justificou Berta Cabral, durante uma audição na Comissão de
Assuntos Parlamentares, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, reunida
em Ponta Delgada.A governante, que tutela a
pasta da Energia nas ilhas, respondia ao repto lançado pelo deputado
António Lima, do BE, para quem o executivo regional de coligação PSD,
CDS-PP e PPM deveria intervir no negócio de aquisição de fuelóleo entre a
EDA e a empresa Bencom, para garantir “um preço justo”.“Como
é que o governo pode aliar-se de todo este processo, que envolve muitos
milhões de euros, que prejudica claramente a EDA, em detrimento de um
fornecedor privado de fuelóleo”, questionou o parlamentar bloquista,
durante a audição parlamentar, lembrando que esse fornecedor é um dos
acionistas da empresa pública, o que significa que há também “um claro
conflito de interesses” no negócio.Berta
Cabral recusou a existência de qualquer conflito de interesses entre os
privados e a EDA e garantiu que o negócio de compra de combustível está
assente num mercado concorrencial.“Não
vejo que haja aqui qualquer conflito de interesses. Se não há
concorrência, é porque não há mais empresas interessadas em prestar esse
serviço. Não há aqui qualquer monopólio, isto é o mercado a funcionar”,
insistiu a governante, ouvida pelos deputados ao parlamento açoriano.A
audição ocorreu a pedido do BE, que questiona a legalidade da
contratação de combustíveis, por parte da EDA, no valor de 162 milhões
de euros, por ajuste direto, à empresa Bencom, pertencente ao Grupo
Bensaúde, que é um dos acionistas da elétrica açoriana (através da ESA).“O
contrato existente entre a região e o Grupo Bensaúde garantiu lucros
astronómicos à Bensaúde e taxas de rendibilidade muito acima da média do
setor”, lembrou António Lima.No início de
outubro, durante uma outra audição parlamentar sobre o assunto, o
presidente do Conselho de Administração da EDA, Paulo André, já havia
recusado também a existência de “qualquer conflito de interesses” neste
negócio.“Por decisão pessoal e por
precaução, os dois administradores do Conselho de Administração da EDA
que foram indicados pela ESA [Energias e Serviços dos Açores, S.A.]
pediram a escusa em todas as decisões ou decidiram não participar nas
reuniões, por isso, não posso aceitar que exista algum conflito de
interesses”, justificou, na ocasião, o gestor público.O
ajuste direto entre ambas as empresas, explicou então, apenas foi
assinado porque o concurso público lançado anteriormente pela EDA, no
valor de 135 milhões de euros, ficou deserto e poderia existir o “risco”
de faltar eletricidade em algumas ilhas.Paulo
Jorge André indicou também que a diferença de valores entre o concurso
público e o ajuste direto se justifica pelo aumento do custo do
combustível nos mercados internacionais e pelo facto de nenhuma outra
empresa se ter mostrado disponível para fornecer o fuelóleo pelo valor
inicialmente previsto.A Assembleia
Legislativa dos Açores já tinha aprovado, em 2023, uma resolução do
Bloco de Esquerda que recomendava ao Governo Regional a realização de
estudos para encontrar “a melhor solução económica e ambiental” para o
modelo de fornecimento de combustível para a produção de energia a
partir de 2025, altura em que termina o atual contrato de exclusividade,
com a empresa Bencom.De acordo com os
números divulgados pelo próprio BE, entre 2013 e 2021 a Bencom faturou à
EDA cerca de 375 milhões de euros com o negócio de fornecimento de
combustíveis nos Açores.