Ginastas reencontraram em Guimarães a paz e os sonhos que a guerra lhes tirou
Ucrânia/1 ano
20 de fev. de 2023, 08:25
— Jorge Afonso da Silva/Lusa/AO Online
Assim que a Rússia
invadiu a Ucrânia, a 24 de fevereiro de 2022, as vidas de Miroslava
Bespala, de Sofia Smerteniuk, de Anzhelika Shyriaeva, de Ailara Stadnyk e
das gémeas Sofia e Oleksandra Riabets, mudaram de um dia para o outro e
a seis ginastas rítmicas, acompanhadas pelas mães e por outros
familiares, tiveram de fugir para outros países.“As
meninas já estavam fora da Ucrânia quando me contactaram. Umas estavam
na Roménia, outra na Alemanha, outra na Polónia. E as treinadoras
contactaram-me: ‘tenho estas meninas perdidas na Europa, preciso de
ajuda’. Eu própria também me disponibilizei logo a ajudar. Não sabia que
ia tomar estas proporções, mas estava disposta a ajudar da maneira que
conseguisse. E foram chegando”, relata à agência Lusa, Adriana Castro de 35 anos, treinadora de ginástica rítmica do Guimagym, enquanto as
atletas iniciam mais um treino.A antiga
ginasta da seleção nacional conta que, entre 2005 e 2011, esteve em
Kiev, capital da Ucrânia, onde se licenciou e fez um mestrado em
Educação Física e Desporto, com especialização em ginástica rítmica e,
simultaneamente, treinava e representava Portugal em competições
internacionais.“Com os contactos que tinha
de lá, várias amigas minhas, treinadoras destas meninas em Kiev,
pediram-me para as acolher e, então, o Guimagym iniciou este processo de
acolhimento. Chegamos a ter cá 25, 26 pessoas. Duas já foram embora, o
resto continua connosco, entre familiares destas meninas, avós, irmãos,
mães. Mais recentemente já veio um pai, conseguiu sair”, adianta Adriana
Castro.Cinco das ginastas moravam em
Kiev, mas Anzhelika Shyriaeva residia em Karkiv, uma das cidades atacada
logo após a invasão russa. A treinadora relata que a menina “esteve 20
dias num bunker com a mãe” e que só ao fim desse tempo é que conseguiram
sair da cidade.“E vieram de carro até
Vizela, porque há um grupo de futebolistas em Vizela e ela conhecia uma
amiga que veio com eles. Entretanto, a Federação da Ucrânia criou uma
base de dados e o Guimagym foi logo dos primeiros clubes a dizer que
estava pronto para receber ginastas. Quando elas chegaram a Vizela,
foram à procura de clubes com ginástica rítmica e ligaram para o
Guimagym. Dessa menina, não conheço a treinadora, não foi diretamente
comigo, mas essa base de dados ajudou-a a chegar a nós também”, explica
Adriana Castro.As seis ginastas estão
alojadas, há quase um ano, em três casas, com a ajuda de particulares e
de empresas, pois o Guimagym - Clube de Ginástica de Guimarães não teria
condições para suportar todas as despesas. A primeira menina chegou em
março de 2022, as restantes pouco tempo depois.“Mal
chegaram, começaram a competir em Portugal pelo Guimagym. Uma venceu o
campeonato nacional sénior. Não pôde receber a medalha, mas foi ela que
conseguiu a melhor classificação total na competição. Foi com esse
objetivo também que procuraram o Guimagym, porque sabiam que o treino ia
ser adequado ao nível delas, o facto de eu falar russo também facilita
muito a comunicação e o clube abriu as portas”, salienta Adriana Castro,
enquanto faz correções (em russo) aos exercícios que as ginastas vão
treinando.O dia-a-dia destas meninas
começa por volta das 06h00 em Portugal, 08h00 em Kiev, hora a partir da
qual têm aulas online da escola ucraniana. Este ano letivo, quatro
optaram por só fazerem a escola ucraniana online, enquanto duas, que
frequentam o 6.º e o 11º anos, têm aulas de português, duas vezes por
semana.Além dos estudos, o resto dos dias é
passado praticamente a treinar, de segunda a sábado. Os treinos são
diários e têm uma duração nunca inferior a cinco horas. Aos fins de
semana, competem pelo clube a nível nacional e internacional.Na ginástica rítmica exstem cinco aparelhos - corda, arco, fita, bola e massas – e é modalidade olímpica.“A
ginástica rítmica é um desporto olímpico e todas as crianças sonharão
chegar aos Jogos Olímpicos. Claro que é muito difícil. Só as 24 melhores
do Mundo é que chegam. Mas o sonho, último, será esse. Agora, seleção
nacional, campeonato da Europa, campeonato do Mundo, competir, evoluir.
Para já, o objetivo é continuar a treinar e isso nós conseguimos
garantir e garantir a evolução delas. O resto virá. A guerra também o
dirá, quais caminhos elas vão seguir depois da guerra acabar”, frisa a
treinadora.Adriana Castro revela que há a
possibilidade de algumas destas ginastas virem a competir futuramente
por Portugal, dando conta de que já está em curso o “processo de
naturalização” de Sofia Smerteniuk de 16 anos, a tal ginasta que venceu
o campeonato nacional sénior em julho do ano passado, mas que não pôde
receber medalha.“Claro que é um processo
complicado, demorado. Não temos muito tempo, porque a carreira de
ginasta é curta. Aproveito para fazer esse apelo, porque seria uma mais
valia ter uma ginasta como ela na nossa seleção nacional. Não estamos
muito bem servidos e não temos muita quantidade, portanto, seria uma
mais valia a nível da ginástica rítmica poder contar com ela”, apelou a
ex-ginasta da seleção nacional.