Geoparque Açores prepara nova avaliação da UNESCO em 2027

Hoje 10:00 — Ana Carvalho Melo

Que balanço faz destes 13 anos deintegração do Geoparque Açores na Rede Global de Geoparques?Esta integração aconteceu a 21 de março de 2013, durante a 12.ª Conferência Europeia de Geoparques, no Geoparque e Parque Nacional de Cilento, Vallo di Diano e Alburni, em Itália.O Geoparque Açores foi um dos primeiros geoparques arquipelágicos do mundo e o 53.º geoparque europeu a integrar a Rede Global de Geoparques, que atualmente conta com 229 geoparques em 50 países, e que veio impulsionar de forma decisiva a proteção e valorização do património geológico e reforçar o posicionamento dos Açores no contexto internacional em matéria de geoconservação.O balanço destes 13 anos de integração do Geoparque Açores na Rede Mundial de Geoparques da UNESCO é claramente muito positivo e constitui um motivo de grande orgulho para a nossa Região.Desde então, os Açores têm-se afirmado como um território de excelência neste domínio, mantendo a qualidade necessária para dar resposta às exigentes revalidações da UNESCO, o que comprova a consistência e a qualidade do trabalho desenvolvido ao longo destes anos.Ao nível da conservação, registou-se uma valorização muito significativa dos geossítios, com maior proteção, melhor sinalização e criação de infraestruturas que permitem não só preservar, mas também interpretar e divulgar este património único, como é exemplo, a construção do novo Centro de Interpretação do Algar do Carvão, promovida pela Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática, há muito aguardado, e que vem dignificar ainda mais este geossítio de relevância internacional.Paralelamente, o empenho na educação ambiental tem sido fundamental, envolvendo escolas, comunidades e visitantes. Este trabalho tem contribuído para uma maior literacia científica, para a consciencialização sobre os riscos naturais e para a valorização do património geológico, promovendo cidadãos mais informados, conscientes e participativos, mas também reforçando o sentimento de pertença face ao território.Outro aspeto relevante é o impacto no desenvolvimento sustentável. O Geoparque Açores, em articulação com a Direção Regional do Turismo, tem impulsionado o geoturismo e contribuído para uma oferta diferenciadora. Isto traduz-se na dinamização da economia local e na criação de novas oportunidades para todos os açorianos.(...)Quais foram os principais resultados já alcançados pelo Geoparque Açores?Um dos principais resultados alcançados pelo Geoparque Açores ao longo deste período foi sem dúvida o reforço da sua estabilidade institucional e financeira, o que permitiu consolidar a associação e garantir maior continuidade e eficiência na sua atuação.Este progresso deve-se, em grande medida, à visão estratégica do secretário regional do Ambiente e Ação Climática, Alonso Miguel, que reconheceu a relevância do geoparque enquanto instrumento de valorização do território e ferramenta de desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, em 2022 a Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática assumiu a presidência da direção da estrutura de gestão do geoparque, promovendo a reestruturação dos órgãos sociais da GEOAÇORES e assegurando o reforço dos recursos humanos e financeiros necessários ao cumprimento da sua missão.Esta maior estabilidade permitiu à equipa do geoparque trabalhar com mais foco e consistência, reforçando áreas fundamentais como a conservação do património geológico, a educação ambiental, a dinamização de parcerias e a projeção internacional dos Açores.Como resultado, o Geoparque Açores consolidou a sua afirmação, tanto a nível regional como no contexto da Rede Global de Geoparques da UNESCO, reforçando o seu papel enquanto agente ativo na promoção do desenvolvimento sustentável.De que forma o geoparque tem contribuído para a valorização dopatrimónio geológico dos Açores?O Geoparque Açores tem contribuído de forma muito consistente para a valorização do património geológico dos Açores através de uma abordagem integrada, que combina conservação, conhecimento científico, educação, valorização e promoção.Desde logo, ao nível da identificação e inventariação, foi desenvolvido um trabalho científico rigoroso que permitiu reconhecer, inventariar e avaliar mais de uma centena de geossítios, evidenciando a sua relevância ao nível regional, nacional e internacional.Importa sublinhar que este é um processo contínuo e dinâmico, que evolui à medida que aumenta o conhecimento científico e surgem novas oportunidades de valorização ou necessidades de proteção. Em alguns casos, a própria comunidade tem um papel ativo neste processo. Um exemplo disso é a Ponta da Ajuda, onde a identificação do geossítio resultou de uma iniciativa da população local, numa abordagem bottom-up. (...) Atualmente, está também em curso uma revisão do inventário de geossítios, coordenada pela equipa de geoconservação, que visa a compilação, atualização e georreferenciação da informação já existente. Este trabalho poderá conduzir a ajustes na delimitação das áreas e no número de geossítios, reforçando a credibilidade e a eficácia da sua gestão.Por outro lado, a valorização passa também pela interpretação e divulgação. Têm sido criados equipamentos interpretativos, conteúdos expositivos e materiais informativos que permitem tornar este património mais acessível e compreensível para o público em geral e para aqueles que nos visitam.O Geoparque Açores tem vindo a valorizar o património geológico não só através da sua identificação e valorização, mas também ao envolver as comunidades, promover o conhecimento e dar-lhe visibilidade junto da sociedade.O Geoparque analisa também o uso ou potencial dos geossítios. Muitos têm valor educativo, funcionando como “salas de aula ao ar livre” que facilitam o ensino de Geologia, Geografia, Biologia e Ciências Naturais. Esta abordagem imersiva promove a aprendizagem e aproxima os alunos da ciência e da natureza. Além disso, os geossítios possuem potencial turístico, oferecendo experiências únicas que promovem o turismo sustentável e geram benefícios económicos para as comunidades, incentivando a valorização e preservação do território. Vários geossítios têm ainda grande relevância científica, sendo locais-chave para o estudo de processos geológicos ou da história da Terra. Atraem investigadores nacionais e internacionais, tornando-se recursos estratégicos para a ciência, a educação e o turismo, o que justifica a sua proteção e valorização.Que impacto tem tido o Geoparque Açores nas comunidades locais e nodesenvolvimento sustentável?Relativamente ao desenvolvimento socioeconómico sustentável, o Geoparque Açores tem tido um impacto concreto ao nível da capacitação e sensibilização das comunidades locais, quer seja na sua relação de proximidade com o território quer seja promovendo resiliência face aos riscos naturais.Por um lado, tem vindo a estimular e qualificar a prestação de serviços, sobretudo no setor do turismo, através de ações de formação dirigidas a agentes locais, com foco no geoturismo e na valorização da geodiversidade e do património geológico enquanto recurso turístico. Isto traduz-se numa oferta mais qualificada e diferenciadora, capaz de gerar maior valor económico para essas empresas.Por outro, tem contribuído para a criação e valorização de produtos identitários, fortemente ligados ao território, incentivando os produtores locais a contar a história dos seus produtos estabelecendo raízes na natureza vulcânica do arquipélago. Este processo reforça a autenticidade da oferta e aumenta a sua competitividade, tanto a nível regional como externo.A rede de parceiros do geoparque, que abrange diversas áreas de atividade, tem vindo a crescer de forma consistente, o que demonstra o envolvimento das comunidades e o reconhecimento do valor desta estratégia. Esta rede permite promover os produtos e serviços locais, dentro e fora dos Açores, criando novas oportunidades de mercado.O impacto tem -se traduzindo numa economia local mais dinâmica, qualificada e sustentável, com benefícios diretos para as comunidades, através da criação de oportunidades, valorização de recursos endógenos e reforço da identidade territorial.Como têm sido promovidas aeducação, a sensibilização e a ligaçãoentre comunidades e território?A geoeducação é um dos pilares fundamentais de um geoparque. Nesse sentido, a educação ambiental assume um papel estratégico na sensibilização de alunos, professores e da comunidade em geral, despertando para a importância da geodiversidade e da preservação do património geológico.Através da parceria com a Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática, o Geoparque Açores tem vindo a reforçar a sua presença em todas as ilhas, procurando ultrapassar os desafios próprios de um território arquipelágico. Um exemplo disso é a criação dos “Cantinhos do Geoparque” nas várias delegações de ilha, aproximando o geoparque das comunidades locais.Esta parceria estratégica permite também dinamizar de forma consistente a oferta educativa nas nove ilhas, garantindo uma atuação equilibrada e eficaz. O Programa Educativo do Geoparque Açores, o PEGAz, integra a Oferta de Atividades de Sensibilização Ambiental Escolar, promovida pela Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática e outros parceiros, e inclui diversas atividades lúdico-didáticas sobre temas como os vulcões, as rochas, as geopaisagens dos Açores, os riscos naturais e as alterações climáticas. A par disso, promove atividades no exterior, como as Rotas dos Geossítios e as (GEO) Rotas Urbanas. Em 2025, foi também lançada, pela primeira vez, uma oferta online dedicada aos “Conceitos Básicos da Geologia dos Açores”, permitindo chegar a novos públicos e reforçar a componente digital da educação.Para além destas iniciativas, o Geoparque Açores aposta na criação de recursos pedagógicos acessíveis e apelativos para diferentes faixas etárias, bem como na formação de professores e na participação em projetos internacionais.Ao longo dos anos, têm também sido desenvolvidos diversos materiais didáticos, como jogos educativos e guias infantis, sendo o mais recente dedicado às cavidades vulcânicas dos Açores. (...)Que importância têm a cooperaçãointernacional e as parcerias com outros geoparques europeus e mundiais?A cooperação internacional e as parcerias são absolutamente fundamentais para o sucesso de um geoparque e representam uma das grandes mais-valias de integrar a Rede Global de Geoparques da UNESCO.Desde logo, permitem a troca de conhecimento e de boas práticas entre territórios com realidades distintas, mas com objetivos em comum. O Geoparque Açores beneficia dessa partilha em áreas como a geoconservação, a educação ambiental, o turismo sustentável, ao mesmo tempo que também contribui com a sua própria experiência, sobretudo enquanto geoparque arquipelágico, vulcânico.Estas parcerias possibilitam ainda o desenvolvimento de projetos conjuntos, muitos deles financiados por programas europeus, como o Erasmus+ que o Geoparque Açores participou recentemente, que promovem a mobilidade, a inovação e a criação de novos conteúdos educativos.Outro aspeto muito relevante é o reforço da visibilidade internacional dos Açores. A participação ativa em redes europeias e globais aumenta a projeção do território, atrai investigadores, visitantes e investimento, e posiciona a Região como uma referência nas áreas da geoconservação, das ciências da Terra e do desenvolvimento sustentável.Para além disso, esta cooperação contribui para uma aprendizagem contínua e melhoria permanente, uma vez que os geoparques são regularmente avaliados e incentivados a evoluir com base em padrões internacionais de qualidade. (...)Como é que o Geoparque Açoresarticula proteção da geodiversidade e conservação do território?O que se pretende preservar ou proteger é o património geológico, que fazem parte da geodiversidade, e esta ação é realizada através de uma gestão integrada dos geossítios, onde não são vistos de forma isolada, mas inseridos no seu contexto natural, paisagístico e até cultural. (...) Neste sentido existe, uma importante articulação com a Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática, em particular com os Serviços de Ambiente e Ação Climática de cada ilha, na monitorização e vigilância dos geossítios, sendo que esta tarefa é executada em todo o território com o apoio dos Vigilantes da Natureza, que asseguram no terreno o acompanhamento contínuo e a deteção de eventuais ameaças ou necessidades de intervenção. Trabalhamos também em estreita articulação com instituições científicas, como a Universidade dos Açores, a ProGEO e o Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG).Outro aspeto fundamental, como referido antes, é a sensibilização e envolvimento das comunidades, através de ações educativas e programas de comunicaçãos. (...)Quais são as prioridades e desafios para os próximos anos?O Geoparque Açores tem agora como prioridade preparar a missão de avaliação da UNESCO, prevista para 2027, um processo exigente que implica a produção, organização e envio de vários relatórios técnicos e estratégicos que demonstrem a evolução do território, a eficácia das ações implementadas e o cumprimento dos critérios definidos internacionalmente. Paralelamente, será fundamental consolidar a estratégia de geoconservação na Região, reforçando práticas consistentes em todas as ilhas, melhorando a monitorização e promovendo uma atuação mais articulada entre entidades locais e regionais.A capacitação dos agentes do território continuará a assumir um papel central, nomeadamente através da promoção do curso de geoguias, que pretende qualificar profissionais, melhorar a mediação do património e valorizar a oferta turística especializada. A par disso, está previsto o lançamento do PEGAZ 2026/2027, acompanhado da criação de novos recursos educativos que reforcem o papel do Geoparque na sensibilização das comunidades, especialmente junto das escolas e dos jovens.Outro eixo prioritário será a consolidação da rede de parceiros, envolvendo municípios, associações locais, operadores turísticos, grupos de ação local e instituições científicas, de forma a assegurar uma atuação mais integrada, capaz de dar resposta às especificidades de cada ilha e de promover um desenvolvimento mais equilibrado no conjunto do arquipélago.Os desafios decorrem sobretudo das características arquipelágicas do território. A distância e a dispersão geográfica das nove ilhas tornam mais complexa a coordenação e a implementação uniforme de ações, exigindo um esforço adicional de logística, comunicação e presença no terreno. (...) Acrescem ainda os custos de deslocação, o tempo necessário para assegurar acompanhamento próximo e o desafio permanente de manter viva a visão de “9 Ilhas – 1 Geoparque”, essencial para reforçar o sentimento de pertença e a coesão entre todas as comunidades.Num território fragmentado por natureza, garantir unidade estratégica, qualidade técnica e envolvimento local é simultaneamente o maior desafio e a maior oportunidade para afirmar o Geoparque Açores como um reconhecimento verdadeiramente regional, sustentável e alinhado com as exigências da UNESCO.