Futura médica e professora universitária vão remar aos Jogos

Pequim2008

19 de jul. de 2008, 14:58 — José Luís Sousa-Lusa/AO online

“O apuramento era difícil, não era muito avisado andar a falar [aos alunos] de uma provável participação nos Jogos. É sempre melhor a surpresa do que a desilusão”, disse à agência Lusa Beatriz Gomes, professora assistente da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física (FCDEF) da Universidade de Coimbra. Nascida em Coimbra há 28 anos, Beatriz leva mais de metade dedicados à canoagem, onde começou por influência do pai, praticante habitual. A adolescência “apanhou-a” em Aveiro, altura em que, com 15 anos, integrou pela primeira vez a selecção nacional mas, actualmente, vive em Montemor-o-Velho, para poder conciliar o treino da equipa nacional com as aulas na FCDEF.  Naquela vila do Baixo Mondego vive também Helena Rodrigues, 23 anos, que divide com Beatriz a embarcação de K2 que vai competir em Pequim, na prova de 500 metros.  Natural da Madeira, Helena Rodrigues descobriu a canoagem aos 10 anos em actividades de Verão no Funchal, por indicação da mãe, “convencida que ia para o remo”.  “Quando lá cheguei e vi a canoa, estranhei”, recorda, divertida.  Experimentou a natação, voleibol e ginástica, antes de se decidir pela canoagem e pela viagem para o continente, para o curso de Fisioterapia, já concluído em Coimbra e outro, de Medicina, agora no início.  “Conciliar é muito difícil, este ano praticamente não fui as aulas. Estudo em casa [da Federação, onde reside] pelos apontamentos. Pensava que havia mais competição [com os colegas de curso] mas ajudam-me bastante e facilitam-me a vida”, garante.  Helena Rodrigues elogia o espírito de grupo entre os cerca de 20 atletas que ali residem, ainda que quatro anos de vida em comunidade, dividindo o quarto com duas colegas, “retirem privacidade”.  “É massacrante acordar todos os dias e ver sempre as mesmas pessoas, não temos o nosso cantinho”, refere. Por outro lado, o ritmo diário de aulas, períodos de estudo e treinos não deixa espaço à socialização: “Não tenho tempo”, diz.  No tempo que sobra, em especial após as refeições, aproveita para ler “livros normais” que não os das disciplinas de Medicina, navegar pela Internet e descansar. Embora também vive em Montemor-o-Velho “perto da selecção”, Beatriz Gomes optou por residir em casa própria com o namorado, também ligado à canoagem.  Elogia-lhe o apoio, extensível à Universidade, à Federação da modalidade “pela preocupação constante em nos dar boas condições” e ao treinador, o polaco Ryszard Hoppe. “Só assim e com disciplina e rigor é possível conciliar” a vida profissional e a canoagem”, declara.  “Às vezes o treinador deixa-me sair mais cedo do treino para poder estar a horas em Coimbra. E, este ano, a Faculdade tentou ao máximo ajudar nos horários”, revela. Acrescenta a amizade que une as quatro atletas femininas - para além de Beatriz e Helena, Teresa Portela também vai competir em Pequim, na categoria K1 e Joana Sousa, apesar de não qualificada, segue viagem com a comitiva - manifestando a expectativa de uma boa participação nos Jogos.  “Criámos laços fortes e tem dado frutos. O objectivo de ir foi cumprido, queremos estar em boa forma para fazer um bom percurso”, afirmou.  A esperança de um bom resultado da canoagem feminina é extensível ao seleccionador nacional Ryszard Hoppe, que leva 37 anos de carreira como treinador de canoagem e, em Pequim, cumpre a sua quinta participação nos Jogos Olímpicos, iniciada em Moscovo, em 1980.  “Nunca vi um grupo com tanta motivação e disciplina. Têm todos os valores para serem boas atletas”, garantiu.  Embora não adiante previsões Ryszard Hoppe sustenta que Beatriz, Helena e Teresa “têm condições para ir à final”.  “Estas raparigas querem sempre mais. Às vezes até tenho que lhes refrear os ânimos, precisam de treinar sim, mas também de descansar”, defende.