Funcionárias relatam maus-tratos e bloqueio da anterior direção

Hoje 09:11 — Nuno Martins Neves

O segundo dia do julgamento das quatro mulheres acusadas de 44 crimes de maus-tratos a 17 crianças na creche da Casa do Povo de Rabo de Peixe (CPRP) ficou marcado pelos depoimentos das educadoras e auxiliares de educação que trabalham ou trabalharam no Centro de Apoio à Criança n.º1 (CAC1), durante o período em que ocorreram os alegados maus-tratos.Com maior ou menor descrição, quase todas as funcionárias que prestaram serviço naquela valência creche confirmaram, até algum grau, as situações relatadas na acusação do Ministério Público.Desde tirar a comida da boca das crianças com os talheres, prender crianças à cadeira com tecidos na hora da refeição, alimentar com comida que caia no chão ou era vomitada pelas vítimas, repreender com agressividade ou permitir que os menores - alguns com meses de idade - comessem a refeição com a roupa toda urinada ou até agressões físicas e psicológicos.“Na minha presença, só vi a história da [arguida] Cl. puxar a comida da boca da criança e chamei a atenção. Disse, isso não se faz, pode magoar a criança”, afirmou a animadora socio-cultural Fa. que ficou a coordenar o CAC1 desde dezembro de 2024, por licença de maternidade da educadora Ma.A mesma testemunha diz que o refeitório daquela creche “parecia um mundo à parte. Cada uma fazia o seu trabalho, ninguém se metia e tinha de ser assim. E quem não gostava, tinha de ficar calada”, afirmou.Já a auxiliar Ma., há 33 anos no CAC1, diz que nunca viu tirarem comida da boca das crianças com talheres, nem darem vomitado. No entanto, o procurador do Ministério Público (MP) apontou discrepâncias no depoimento que a testemunha deu no ano passado.Quanto à educadora Ma., na instituição desde 2018, mas ausente por licença de maternidade desde janeiro de 2025, reconhece alguns maus comportamentos às quatro arguidas, mas perante uma queixa do pai de uma das crianças, aceitava as versões das ex-funcionárias. “Acabava por ser o testemunho dos pais contra o deles”, afirmou, apesar de revelar que alguns encarregados de educação relatavam situações como nódoas negras.Perante isto, o procurador inquiriu: “Se havia um livro de ocorrência, porque não escreveu essas situações?”.Seguiram-se três depoimentos sem a presença das arguidas na sala do tribunal, a pedido das testemunhas, por receio das ex-funcionárias.A ajudante de educação Cl. confessou sentir-se “ameaçada” pelas ex-funcionárias e que apesar de ter relatado algumas das situações aos seus superiores, as queixas caíam em saco roto.“Eu via que a educadora Xé. não podia fazer nada. O senhor Machado [n.d.r. presidente da direção da CPRP até 2023] dizia para ficarmos caladas, para não sermos despedidas e que [as alegadas situações de maus-tratos] não eram nada (...). Nunca fomos levadas a sério. Tinha medo das arguidas”, diz, revelando que passou a ser insultada pelas arguidas e pelos seus familiares, depois de ter testemunhado no MP, em abril.O mesmo deu eco a auxiliar Le., na instituição desde 2012, que afirmou ter ouvido uma das arguidas insultar uma criança - “és uma p*** como a tua mãe” -, assim como a educadora Ma., que entrou para a CPRP em 2022, e revelou que atualmente, o ambiente no CAC1 “é muito mais calmo. O momento da refeição é alegre, mesmo as crianças que antes comiam mal”.Perante este rol de acusações, o coletivo de juízes, pela voz do magistrado José Vicente, considerou que as pessoas responsáveis por cuidar do bem-estar das crianças falharam redondamente.“Como alguém que coordena, não coordena nada? Aceitou o trabalho, mas não coordenou nada, pois foi nesse período que foram feitas as gravações. O MP é bonacheirão para algumas pessoas, pois a senhora educadora devia estar sentada ali”, afirmou o juiz à animadora socio-cultural Fa.E acrescentou “Não havia rumores [dos maus-tratos], havia certezas e ninguém fez nada (...) Não houve uma alminha que fizesse nada pelas crianças”.Também foi ouvida, numa sala à parte, uma criança, que foi testemunha dos alegados maus-tratos provocados pelas arguidas.O julgamento prossegue nos próximos dias 7 e 15 de abril.