Frente Comum prevê "grande greve" da função pública na sexta-feira
21 de out. de 2025, 16:35
— Lusa/AO Online
"Vai ser uma grande greve e vai obrigar o
Governo, se tiver bom senso, a perceber que está a comprar conflito
social e que não vai parar porque os trabalhadores exigem políticas
diferentes", afirmou o coordenador da Frente Comum, Sebastião Santana,
em conferência de imprensa em Lisboa.O
dirigente sindical previu o fecho de muitas escolas, perturbações nos
serviços de saúde e de justiça, assim como forte adesão de trabalhadores
nas autarquias, serviços centrais da administração pública e na cultura
e monumentos.Questionado sobre se
acredita mesmo que o executivo poderá fazer marcha à ré nas suas
políticas, Santana afirmou que não espera "que o Governo ceda sem luta",
mas que foi "sempre a luta dos trabalhadores que derrubou Governos e
garantiu noutros anos a valorização do trabalho".Para
o dirigente sindical, os trabalhadores não podem aceitar um Orçamento
do Estado de degradação das condições de trabalho e desinvestimento nos
serviços públicos. Disse Sebastião Santana
que o aumento do orçamento para a saúde em 2026 fica mesmo abaixo da
inflação, além de que, do total de 17 mil milhões de euros, mais de
metade é canalizado para privados (em exames, cirurgias, medicamentos,
etc, financiados pelo Estado)."São 760 mil
pessoas [que são] trabalhadores da administração pública, têm um peso
muito grande na sociedade portuguesa. Se o Governo não tem isto em
atenção trata-se de uma miopia muito grave", disse.Questionado
sobre se haveria margem no Orçamento do Estado para acomodar o aumento
salarial de 15% exigido pela Frente Comum (no mínimo de 150 euros),
tendo em conta o ligeiro excedente de 0,1% do Produto Interno Bruto
(PIB) previsto para 2026, o sindicalista respondeu afirmativamente desde
que fossem alteradas as prioridades políticas."Há
toda a margem. Se a proposta do Orçamento do Estado não tiver borlas
fiscais de 1.700 milhões de euros para as empresas, se não tiver quebra
do IRC de 300 milhões de euros (...). Não é uma questão de falta de
dinheiro, é uma questão de opção política", afirmou.Sebastião
Santana referiu ainda que a proposta orçamental inclui um aumento da
despesa com a defesa em 14% e que recentemente foi anunciado o
investimento de 50 milhões de euros na aquisição de armamento
norte-americano para ser entregue à Ucrânia."Faz crer que estamos hoje em Portugal com mais problemas de segurança do que de saúde, o que não é verdade", frisou.Questionado
ainda sobre se a greve poderá trazer alguma alteração na aprovação do
orçamento no parlamento quando o PS já anunciou uma "abstenção
exigente", Sebastião Santana disse que o PS "ainda vai a tempo de mudar
de opinião" e que o processo político não diz só respeito ao parlamento e
que é condicionado pela luta social.Quanto
aos serviços mínimos nesta greve, os dirigentes da Frente Comum
explicaram que os pré-avisos de greve definiram, como habitualmente, os
serviços mínimos e que na saúde, por exemplo, incluem urgências,
cirurgias programadas consideradas urgentes, tratamentos como
fertilização, hospitalização domiciliária, etc.Até
agora, cerca de 20 entidades (sobretudo da saúde) contestaram os
serviços mínimos definidos cabendo a decisão ao tribunal arbitral."O
que é pena é que as necessidades sociais impreteríveis não sejam
consideradas para o Governo sempre, só nos dias de greve", afirmou
Sebastião Santana, acrescentando que é frequente serviços mínimos na
saúde escalarem mais trabalhadores do que os de um dia normal de
trabalho.Ainda na conferência de imprensa,
a Frente Comum disse ser "vergonhoso" o pacote de reforma laboral e que
a reforma do Estado é uma "terraplanagem dos serviços públicos", desde
logo com a criação da Agência para a Gestão do Sistema Educativo que
considerou que terá uma lógica empresarial e que será a primeira fase da
desconstrução do sistema público de educação.O
Governo entregou dia 09 de outubro a proposta do Orçamento do Estado
para 2026 na Assembleia da República, mantendo a proposta inicial de
aumentos salariais para a função pública prevista no acordo plurianual
assinado em novembro de 2024 com a Fesap e a Frente Sindical. Para
2026, o aumento previsto é de 56,58 euros ou 2,15%, passando para 60,52
euros em 2027 e 2028, com extensão até 2029. A base remuneratória da
Administração Pública, atualmente de 878,41 euros, passará para 934,99
euros em 2026, incluindo progressões, promoções e acordos salariais, num
total estimado de 1.248 milhões de euros em despesas com pessoal.A
manutenção da proposta inicial levou a Frente Comum a manter a greve
geral da função pública marcada para 24 de outubro por considerar que
"fica muito aquém daquilo que é a resposta necessária face ao contínuo
perder do poder de compra dos trabalhadores”.A Frente Comum representa 29 sindicatos de todos os setores da administração pública.