Francisco Mota Saraiva vence Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís
20 de nov. de 2023, 11:01
— Lusa/AO Online
O
romance, que “é a saga de uma família que a história portuguesa do
século XX fez existir entre três continentes, Ásia - Índia, África –
Moçambique, Europa – Portugal”, segundo o júri, vai ser publicado pela
Editorial Gradiva, com a qual a Estoril Sol mantém uma parceria desde o
início do concurso, em 2008.O júri refere
que “a diversidade imaginária desses três mundos é dada através de
narrativas da memória de algumas das principais figuras da família.
Nelas se recordam diferenças promotoras de violências diversas, das
dores e angústias do poder sobre todas as suas formas”, segundo
informação da Estoril Sol enviada à agência Lusa.O
júri foi presidido por Guilherme d’Oliveira Martins, do Centro Nacional
de Cultura, e constituído ainda por José Manuel Mendes, pela Associação
Portuguesa de Escritores, Maria Carlos Gil Loureiro, pela Direção-Geral
do Livro, Arquivos e Bibliotecas (DGLAB), Manuel Frias Martins, pela
Associação Portuguesa dos Críticos Literários, e, ainda, pelos
profesores, escritores e ensaístas José Carlos de Vasconcelos, Liberto
Cruz e Ana Paula Laborinho, convidados a título individual, e Dinis de
Abreu, em representação da Estoril Sol.O
júri destacou também “a riqueza vocabular e os cruzamentos como figuras
da cultura literária ocidental, que dão ao texto uma maturidade
estilística com assinalável alcance literário”.Francisco
Mota Saraiva é o nome literário de Francisco Saraiva, nascido em 1988,
em Coimbra, tendo vivido sempre entre Cascais e Lisboa, segundo
informação da mesma fonte.Saraiva é
licenciado em Direito, pela Universidade Nova de Lisboa, e tem um
Mestrado em Direito e Gestão, pela Nova School of Business and
Economics. Tem trabalhado como jurista e consultor. Em 2021, foi-lhe
concedida pela DGLAB uma bolsa de criação literária, na categoria de
prosa e narrativa, durante a qual escreveu grande parte do original que
venceu este galardão.No mesmo comunicado,
Francisco Saraiva afirma que o romance, “passado entre Tete, em
Moçambique, Lisboa e Serpa, com vagas referências aos períodos pré e
pós-colonial, pretende ser um conjunto de diversas narrativas que,
entrelaçadas umas nas outras, e através de um coro de oito vozes, de
algum modo se unem para contarem a história do absurdo da morte, tanto
através da imagística como do quotidiano mais corriqueiro”.“Apesar
das diversas narrativas se construírem quase como contos isolados, há
toda uma amálgama de pormenores e detalhes que vão surgindo aos olhos do
leitor como aparentemente supérfluos e secundários, mas que servem para
afinal contar a história única da fragilidade e do desconcerto do ser
humano perante a sua condição fatal. A par disto, há relações proibidas
ou devastadas pela cor da pele, pela falta de dinheiro, pelo passado,
por aquilo que nos torna inevitavelmente mais frágeis. Depois disto, há o
luto e mais nada sobra”, conclui Francisco Mota Saraiva.Sobre
o seu percurso, o autor recorda as histórias que o pai lhe leu na
infância, antes de adormecer, e desde então nunca mais largou os livros.
“Por volta dos meus 14 anos, inspirado
pela leitura dos primeiros ditos clássicos, os quais achava tão difíceis
quanto belos, comecei a escrever pequenos contos e narrativas; uma
necessidade já decorrente da fraca poesia que punha no papel desde muito
cedo”, conta o escritor.Como suas
referências cita autores como Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes,
Eça de Queirós, Ferreira de Castro e Gonçalo M. Tavares, entre os
autores nacionais; quanto aos estrangeiros, enumera García Márquez,
Dostoievski, Jorge Luis Borges, Proust, Louis-Ferdinand Céline,
Lispector e Dickens, citando também referências cinematográficas, como
os realizadores Stanley Kubrick, Ingmar Bergman e os irmãos Coen, e na
pintura, como Paula Rego, Graça Morais, Goya e Rembrandt. “A arte é um
multiplicador”, atesta o autor.Sobre a sua
escrita declara: “Um estilo confuso e enigmático, porém, creio, digno. A
linguagem hoje não é a mesma. Amanhã não será. E, no entanto, as
palavras, a frase escrita, permanecem”.A Estoril Sol não adianta quanto será entregue o galardão.No
ano passado o vencedor do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís,
entregue no início deste mês, foi o romance “A Guerra Prometida”, de
Marco Pacheco.