Francisco Afonso Chaves revisitado em exposição no Museu
Hoje 14:45
— Ana Carvalho Melo
O Museu Carlos Machado inaugura sexta-feira (24 julho), às 18h00, no Núcleo de Santa
Bárbara, a exposição “Homenagear Francisco Afonso Chaves”, dedicada a
quem acreditava que “a ciência e a tecnologia seriam a resolução dos
maiores problemas da humanidade”.Segundo Conceição Tavares, curadora
da exposição, esta iniciativa assinala o centenário da morte,
recordando não apenas o cientista, mas sublinhando também a dimensão e a
atualidade do seu legado.“A exposição pretende homenagear Francisco
Afonso Chaves. Trata-se de o recordar e de lhe prestar homenagem,
aproveitando a oportunidade proporcionada, este ano, pelo centenário do
seu falecimento”, afirmou a investigadora integrada do CHAM – Centro de
Humanidades, polo da Universidade dos Açores.Apesar de ser
normalmente identificado como naturalista e meteorologista, Afonso
Chaves destacou-se também no campo da geofísica, com reconhecimento
internacional.“Ele foi, na verdade, um geofísico avant la lettre,
uma vez que, na época, este termo ainda não existia (...). Nomeadamente
no campo do geomagnetismo e da sismologia, revelou-se um notável
praticante destas disciplinas”, sublinha a curadora.Numa época em
que a sismologia era ainda uma proto-ciência, o cientista acompanhou os
avanços internacionais na área. Em 1900, adquiriu dois sismógrafos
desenvolvidos pelo inglês John Milne, considerados, à época, dos mais
fiáveis. Os equipamentos chegaram aos Açores em 1902, tendo o
arquipélago integrado a primeira rede sismográfica internacional.“Os
Açores integraram, desta forma, a primeira rede sismográfica
internacional, precisamente aquela que John Milne viria a constituir”,
recorda Conceição Tavares.Para além da investigação científica,
Afonso Chaves teve também um papel ativo na representação de Portugal em
organismos internacionais. Destaca-se a sua participação no Comité
Meteorológico Internacional, para o qual foi eleito em 1902, mantendo-se
em funções até à morte.Colaborou ainda com o Conselho Internacional
para a Exploração do Mar (ICES), tendo participado nos estudos que
estiveram na origem da criação deste organismo, hoje o mais antigo
organismo intergovernamental em atividade na área da investigação e
gestão das pescas.No plano regional, deixou igualmente uma marca
determinante na área cultural e institucional. Teve um papel fundamental
na transformação do então Museu Liceal em Museu Municipal, contribuindo
para a consolidação do atual Museu Carlos Machado, do qual foi diretor
até à sua morte.“Afonso Chaves foi, ao longo do tempo, expondo e
sublinhando a relevância que teria para a cidade transformar aquele
museu liceal no museu municipal (...). O que é certo é que, em 1890, se
realizou uma reunião na Câmara Municipal (...), na qual se decidiu
converter o Museu Liceal em Museu Municipal”, conta.Mas é na forma
como pensou os Açores que o seu legado ganha uma dimensão
particularmente singular. Numa época em que o arquipélago se encontrava
dividido em três distritos, Afonso Chaves foi dos primeiros a encará-lo
como uma unidade.“Afonso Chaves foi talvez o primeiro homem moderno a
começar a construir essa visão unitária de uma região composta por
todas as ilhas (...), numa altura em que isso era um conceito
absolutamente estranho. Ninguém falava nos Açores assim. Eram os
distritos”, explica.A exposição agora inaugurada reúne peças,
documentos e conteúdos interpretativos que percorrem a vida e obra do
cientista, evidenciando uma trajetória marcada pela observação da
natureza, pelo estudo dos fenómenos meteorológicos e por uma visão
integrada do território.Um legado de dedicação à observação da
natureza, ao estudo dos fenómenos meteorológicos e ao conhecimento do
território, que continua a inspirar a investigação científica nos
Açores.