França relança negociações internacionais para regulação da Internet
12 de nov. de 2018, 18:00
— Lusa/AO online
O
Apelo de Paris, hoje apresentado pelo Presidente francês, Emmanuel
Macron, numa sede da Unesco e perante o secretário-geral da ONU, António
Guterres, surge na senda de uma série de pedidos internacionais para um
mais eficaz controlo das plataformas digitais de comunicação.Na
passada semana, durante o Websummit, em Lisboa, Tim Berners-Lee
(conhecido como o "inventor da World Wide Web") tinha lançado a ideia de
um "Contrato para a Web", envolvendo governos, empresas e utilizadores,
para proteger a navegação na Internet de todo o tipo de abusos e
proteger direitos de privacidade.“Não
passa um dia sem que se descubra uma nova campanha cibernética
maliciosa ou um novo ataque de computador para espionagem, sabotagem ou
interferência”, recordou hoje o ministro dos negócios estrangeiros
francês, Jean-Yves Le Drian, durante a abertura do Fórum para a
Governança da Internet, no âmbito do Fórum de Paris para a Paz, que
decorre na capital francesa até terça-feira.As
negociações para a governança do setor digital tinham estagnado desde
2017, quando um grupo de especialistas da ONU abandonou os trabalhos,
reconhecendo o fracasso, que atribuiu às diferenças de perspetivas entre
as principais potências mundiais.Jean-Yves
Le Drian, não deu pormenores sobre os signatários do Apelo de Paris,
mas tudo indica que China, Rússia e EUA não estejam entre na lista.Em
contrapartida, uma maioria de Estados europeus já o assinou, assim com
um número significativo de organizações americanas, segundo o governo
francês.No manifesto, os signatários reafirmam o seu "apoio a um ciberespaço aberto, seguro, estável, acessível e pacífico".O
Apelo de Paris declara ainda a determinação em “agir em conjunto" para
evitar a ciberatividade maliciosa "que causa danos significativos,
indiscriminados ou sistémicos".Da
mesma forma, os signatários comprometem-se a desenvolver capacidades
para "impedir que atores estrangeiros interrompam processos eleitorais",
numa clara referência a suspeições recentes deste género de
interferência, em casos como o referendo para o ‘Brexit’ ou as eleições
presidenciais nos EUA, em 2016.Emannuel
Macron, na cerimónia do Fórum para a Governança da Internet, anunciou
igualmente que a empresa Facebook "em breve abrigará uma delegação de
reguladores franceses", que trabalhará ao lado de especialistas daquela
empresa do mundo digital "para fazer recomendações conjuntas precisas e
concretas sobre a luta contra o conteúdo odioso e ofensivo"."Estou
muito contente por esta iniciativa experimental muito inovadora, que
permitirá refletir concretamente e com as melhores vozes para garantir
que as grandes plataformas apliquem um alto nível de qualidade na
moderação dos conteúdos", disse o Presidente francês.Macron
referiu que existem atualmente dois tipos de Internet - a californiana e
a chinesa: a primeira de atores privados, não eleitos democraticamente,
em autogestão; a segunda com um governo que controla um sistema
hegemónico."Precisamos
de construir, pela regulação, uma nova via, onde os Estados regulam com
os atores privados", concluiu o Presidente francês.“O
Apelo de Paris é um verdadeiro ponto de viragem na maneira de lidar com
problemas de segurança cibernética”, reconheceu Brad Smith, presidente
da Microsoft, cuja empresa está no rol de signatários."A
única maneira de proteger a segurança cibernética no futuro é que todos
trabalhem juntos: governos, o setor de tecnologia e a sociedade civil",
explicou Brad Smith.