“Foi com enorme orgulho que percebi que havia uma continuação da tradição”

30 de ago. de 2026, 08:00 — Ana Carvalho Melo

Aos 56 anos, e com 34 anos de carreira, o intendente Rúben Medeiros assume funções numa instituição que acompanha a sua família há três gerações. O percurso começou em São Roque, onde nasceu e cresceu, passou por várias unidades policiais dos Açores, incluiu quatro missões internacionais e culminou, em 2025, na nomeação para o cargo de segundo Comandante Regional.“Eu sou de São Roque, toda a minha infância e adolescência foram passadas em São Roque”, recorda Rúben Medeiros, contando que guarda “as melhores recordações” da família e dos amigos, num tempo em que a vida das crianças decorria sobretudo na rua.“Cresci na década de 70 e 80, num contexto próprio, histórico e social, daquela época”, afirma. Futebol, praia, férias de verão e convívio com familiares e amigos fazem parte das memórias de uma infância que descreve como “normal”, mas também marcada por uma forte interação presencial.O pai, Ilídio Medeiros, era Comandante da Esquadra de Trânsito da PSP de Ponta Delgada e constituiu uma referência determinante na formação pessoal e profissional do filho. No entanto, Rúben Medeiros sublinha que nunca foi pressionado a seguir a mesma profissão.“O meu pai nunca exerceu qualquer tipo de pressão para que eu fosse para a polícia ou para outra coisa qualquer”, garante, explicando que a decisão resultou da observação do percurso familiar e da procura de uma carreira estável, numa época em que os jovens eram incentivados a pensar a vida profissional a longo prazo. “Vendo o exemplo e convivendo já na altura com a família policial, achei que poderia ser uma profissão de futuro”, afirma.Entrou para a Escola Prática de Polícia em agosto de 1992 e iniciou funções em 1993 em São Miguel.Ser filho de um polícia conhecido trouxe responsabilidades adicionais, pelo que Rúben Medeiros recorda que o seu pai foi particularmente exigente durante o período em que esteve na Esquadra de Trânsito para evitar qualquer suspeita de favorecimento.“O meu pai comigo não facilitava, justamente para não haver qualquer perceção de favorecimento”, recorda, explicando que a exigência era sentida tanto no plano profissional, como nas decisões relacionadas com os estudos.Quando Rúben Medeiros começou a frequentar o curso de Gestão na Universidade dos Açores, o pai incentivou-o a prosseguir a formação, mas sugeriu que mudasse de subunidade para evitar qualquer interpretação de benefício. O então agente acabou por conciliar o trabalho por turnos com as aulas, trocando horários com colegas e fazendo noites para poder frequentar o curso durante o dia.A decisão de abandonar a universidade e concorrer ao curso de oficiais foi, nas suas palavras, uma “opção estratégica”. “Resolvi, na altura, investir na carreira”, explica.Em 1996, ingressou no Curso de Formação de Oficiais de Polícia, concluído em 2001 na Escola Superior de Polícia, hoje Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna.Após concluir o curso de oficiais como Subcomissário, Rúben Medeiros regressou novamente aos Açores, onde assumiu o comando da Esquadra da Ribeira Grande, o qual recorda como uma experiência de chefia particularmente importante, também pelo apoio da equipa que encontrou. Destaca, em especial, o subchefe adjunto Caetano Luz, de quem ainda hoje afirma possuir “uma grande estima e um grande respeito profissional por me ter ajudado naquela fase inicial”.Mais tarde, realizou o curso de Investigação Criminal e esteve ligado à criação e organização da estrutura de investigação criminal em Ponta Delgada por indicação do Superintendente Furtado Dias. O trabalho envolveu a definição de normas, protocolos de atuação e a integração dos serviços existentes numa estrutura única, mais organizada.“Fui eu e a minha equipa que lançámos as bases da investigação criminal em Ponta Delgada”, afirma, reconhecendo o contributo do chefe José Medeiros, do chefe Humberto Bettencourt, entretanto aposentados, e da chefe Guilhermina Reis.A carreira de Rúben Medeiros incluiu quatro missões internacionais, ao serviço da União Europeia e das Nações Unidas. Esteve na Bósnia, no Kosovo, em Timor-Leste e no Níger.Na Bósnia, entre 2005 e 2006, viveu uma experiência que considera decisiva para o amadurecimento pessoal e profissional. No Kosovo, entre 2008 e 2009, trabalhou sobretudo na área da gestão de projetos. Em Timor-Leste, entre 2011 e 2012, desempenhou funções no âmbito de uma missão das Nações Unidas.A missão no Níger, entre 2017 e 2019, representou uma responsabilidade acrescida. Rúben Medeiros chefiou um escritório de campo da missão EUCAP Sahel Níger e integrou a equipa sénior de gestão, assumindo funções de coordenação e decisão estratégica. “Tive o privilégio de lidar com culturas muito diferentes”, explica. No Níger, participou em projetos destinados a apoiar as forças locais e a sociedade civil, incluindo a entrega de fotocopiadoras e secretárias a escolas que ainda utilizavam métodos rudimentares para reproduzir documentos.A missão envolveu também o apoio a um orfanato, através da angariação e entrega de livros, roupas e bens alimentares. “Foi uma forma de contribuirmos para a sociedade, não só no desenvolvimento da nossa parte formal, profissional, mas também em termos de envolvimento com a sociedade local”, afirma, dando nota de que, nesta experiência, foi agraciado com a Ordem de Cavaleiro da República do Níger, uma distinção atribuída pelo então Presidente da República daquele país.A experiência internacional, acrescenta, contribuiu para desenvolver uma maior tolerância e compreensão perante diferentes culturas e formas de organização. “O respeito tem que vir com a diferença”, defende.Ao longo do percurso, Rúben Medeiros exerceu funções em várias unidades do Comando Regional dos Açores. Foi adjunto da Divisão Policial de Ponta Delgada, comandante da Divisão de Segurança Aeroportuária, comandante das Divisões Policiais da Horta e de Angra.“Sou o oficial, em termos de comando, que já passou pelas unidades, pelas divisões todas do Comando dos Açores”, afirma, considerando que essa experiência lhe proporciona um conhecimento abrangente da realidade policial do arquipélago.Em março de 2026 foi nomeado, em comissão de serviço, por três anos, para o cargo de segundo Comandante do Comando Regional da PSP nos Açores.Hoje, o legado continua através do seu filho, Gonçalo Medeiros, que é atualmente o Comandante da Esquadra de Investigação Criminal da Divisão de Ponta Delgada.Rúben Medeiros conta que, durante a infância, o filho dizia querer ser várias coisas, entre elas jogador de futebol, mas não dava sinais claros de que seguiria a profissão do pai.Para Rúben Medeiros, ver o filho seguir os seus passos foi motivo de enorme satisfação. “Foi com enorme orgulho que percebi que havia uma continuação da tradição. Encheu-me de alegria”, confessa, recordando com carinho o momento em que lhe impôs as platinas de comissário.Enquanto segundo Comandante Regional, Rúben Medeiros diz enfrentar funções mais exigentes e com uma componente cada vez mais estratégica, destacando a confiança do Comandante Regional, Hélder Valente Dias, e assumindo o compromisso de continuar a servir a PSP com o mesmo empenho demonstrado ao longo de mais de três décadas.“Espero poder estar à altura e desempenhar bem as funções. Irei dar sempre o meu melhor, como tenho feito ao longo destes 34 anos de carreira”, afirma.Sobre a perceção pública da polícia, Rúben Medeiros afirma: “A PSP é a força que é mais visível, é a força que está sempre presente. Nós somos sempre o caráter visível de tudo”.Mas o seu objetivo permanece claro: garantir que os Açores continuem a ser uma das regiões mais seguras do país. “Nós estamos sempre apostados em melhorar e em fazer melhor ao lado e em prol da sociedade”, conclui.