Focos de loque americana obrigam a medidas sanitárias excecionais nas Flores
26 de ago. de 2025, 09:34
— Filipe Torres
O Governo Regional dos Açores anunciou a aplicação de medidas sanitárias
excecionais na ilha das Flores, devido à deteção de focos de Loque
Americana, uma “doença bacteriana altamente contagiosa” que afeta
colmeias e pode devastar a produção apícola.Segundo o documento
assinado pelo diretor regional, Luís Estrela, a situação foi confirmada
nos concelhos das Lajes das Flores e de Santa Cruz das Flores, onde
passam a vigorar Áreas de Vigilância. Nestes territórios é proibida a
movimentação de abelhas, colmeias, enxames ou materiais apícolas. A
comercialização de cera de abelha nas Flores só é possível se estiver
devidamente esterilizado e acompanhado de certificação oficial.Entre
as medidas destacam-se a destruição obrigatória de apiários positivos
ou suspeitos, a proibição da instalação de novos apiários e a
necessidade de análises laboratoriais regulares aos existentes. Também o
transporte de materiais para melarias só será permitido em períodos de
cresta e após testes negativos. A comercialização de cera fica restrita
àquela que for previamente esterilizada.A Direção Regional da
Agricultura, Veterinária e Alimentação sublinha que o incumprimento
constitui contraordenação, podendo configurar crime de desobediência ou
falsas declarações. O edital entra de imediato em vigor e apela à
colaboração de autoridades policiais, veterinárias e administrativas na
fiscalização.Ao Açoriano Oriental, Luís Estrela afirma que a
primeira ação decorreu entre os dias 3 e 8 de julho, na qual foi
detetado o primeiro caso da loque americana, uma doença que já tinha
sido detetada na ilha de São Miguel entre 2009 e 2011 e na ilha do Pico
em 2017, e posteriormente em 2021. Neste verão, na ilha das Flores, já
foram destruídas 53 colónias e três apiários.O diretor regional
afirma que o impacto económico, à data, é significativo e que, para os
apicultores afetados, tem um impacto muito grande. No entanto, Luís
Estrela confirma que o Governo Regional vai dar uma compensação
financeira aos apicultores cujo material teve de ser destruído. Nos dias 20 e 21 de Agosto, foi realizada a segunda ronda das amostras e foram enviadas ao Laboratório Regional de Veterinária.O
foco da doença loque americana foi identificada nas Flores no âmbito
dos controlos sanitários previstos no Programa Sanitário Apícola
Regional.Governo Regional e Casermel com visões diferentesA deteção de loque americana nas Flores voltou a abrir o debate sobre as estratégias de combate a esta doença. O
Governo Regional, através do diretor regional de Agricultura,
Veterinária e Alimentação, Luís Estrela, sublinha que a prioridade é
erradicar o problema com medidas firmes mas proporcionais. O
responsável garante que o consumo de mel não representa riscos para a
saúde humana e insiste que o objetivo é preservar a excelência sanitária
da apicultura açoriana. Questionado sobre o impacto a médio e longo
prazo da loque americana na atividade apícola nas Flores, o diretor
regional afirma que a atividade ‘não está comprometida’, uma vez que
apenas três dos cerca de 17 apiários foram destruídos, e os apicultores
poderão relocalizar-se em zonas seguras com acompanhamento técnico.Por
outro lado, José Gaspar, presidente da Casermel, Cooperativa de
Apicultores e Sericicultores de São Miguel, reconhece a importância das
medidas, mas defende que se devia ir mais longe. “Não veríamos com maus
olhos que fosse equacionada a possibilidade de destruição de todos os
apiários da ilha e não apenas daqueles em que já foi identificado ou que
se suspeita”, afirma, sublinhando que tal ação teria de ser acompanhada
por indemnizações justas. Só assim, explica, seria possível travar a
loque americana, e também a outra praga já presente nas Flores: a
varroa. José Gaspar sublinha a importância de compreender as causas
do surto, definir as medidas a adotar e estabelecer as estratégias para
prevenir futuras ocorrências, defendendo que o caso das Flores sirva de
estudo.