FMI vai aumentar reservas em 500 mil milhões de dólares
2 de mar. de 2021, 17:34
— Lusa/AO Online
"Quero expressar a
minha gratidão a todos por pressionarem para esta nova alocação de DES,
que é a moeda do FMI, e finalmente na sexta-feira tivemos 'luz verde' do
G20 para trabalhar numa nova alocação de 500 mil milhões de dólares
[414 mil milhões de euros], o que permitirá que todos os Estados-membros
recebam a sua parte", anunciou Kristalina Georgieva.A
dirigente do FMI falava no primeiro painel do Fórum Orçamental
Africano, que decorre hoje e quarta-feira a partir de Washington em
formato virtual."Estamos muito
interessados em pensar como os países mais ricos, que não precisam tanto
quanto os mais pobres, poderão transferir através do FMI alguns destes
DES, porque o que precisamos em 2021 é de reconhecer que nada pode ser
posto na categoria do impossível", acrescentou a responsável, elencando
que "a digitalização, a educação, a supressão da burocracia contra o
setor privado, a despesa pública de qualidade e o aumento do apoio
internacional devem ser possível".A
emissão de 500 mil milhões de dólares em DES é uma das reivindicações
dos países mais pobres, nomeadamente os africanos, que enfrentam um
aumento da dívida pública e do custo de servir essa dívida devido à
depreciação das moedas e das reservas internacionais decorrentes dos
efeitos económicos da descida do preço das matérias primas e do
abrandamento da procura, no seguimento da pandemia de covid-19.Para
além desta transferências das verbas, Georgieva defendeu ainda que
entre as políticas que os países africanos devem implementar está o
"aumento das receitas, especialmente coletando os mais ricos, para
garantir que 2021 seja um ano com mais competitividade, mais resiliência
e com economias mais fortes em África".Na
intervenção, a diretora do FMI lembrou que "40% dos países africanos
têm uma dívida 'problemática' ['debt distress', no original em inglês] e
para conseguirem recuperar as economias, têm de se chegar à frente e
tratar da questão da dívida", acrescentando que "o FMI é um grande
parceiro para dar a garantia de que a dívida em reestruturação é baseada
em políticas económicas sãs".Os credores,
vincou, "avançarão se virem essa perspetiva de gestão correta da
trajetória da dívida no futuro", referindo-se à obrigatoriedade de
qualquer país que adira ao Enquadramento Comum do Tratamento da Dívida
além da Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida (DSSI) entrar num
programa de ajustamento económico com o FMI.África,
concluiu a responsável, que se referiu ao continente como "o sítio onde
qualquer sonho pode ser tornado realidade", só vai "ter sucesso se
acreditar em si própria, mas para isso é preciso ser completamente
transparente em todas as questões, desde os empréstimos à dívida,
passando pelos contratos e pela despesa pública e pelas contas das
empresas públicas".A conferência de hoje à
tarde teve como tema de debate as reformas económicas 'corajosas',
cujas iniciais em inglês da palavra 'brave' foram usadas como guião para
as prioridades das reformas: ousadas, baseadas na receita, ancoradas,
compatíveis com vacinação e equitativas.A
DSSI é uma iniciativa lançada pelo G20 em abril do ano passado que
garantia uma moratória sobre os pagamentos da dívida dos países mais
endividados aos países mais desenvolvidos e às instituições financeiras
multilaterais, com um prazo inicial até dezembro de 2020, que foi depois
prolongado até junho deste ano, com possibilidade de nova extensão por
seis meses.Esta iniciativa apenas sugeria
aos países que procurassem um alívio da dívida junto do setor privado,
ao passo que o Enquadramento Comum, aprovado pelo G20 em novembro,
defende que é forçoso que os credores privados sejam abordados, ainda
que não diga explicitamente o que acontece caso não haja acordo entre o
devedor e o credor.O pedido de adesão a
este Enquadramento por parte da Etiópia, no final de janeiro, agitou os
investidores, que encararam o país como o primeiro de vários países na
África subsaariana a pedirem alívio da dívida, o que é também a
perspetiva da diretora executiva da Comissão Económica das Nações Unidas
para África (UNECA), que antevê que mais países sigam o exemplo do
Chade, da Zâmbia e da Etiópia.A proposta
apresentada pelo G20 e Clube de Paris em novembro é a segunda fase da
DSSI, lançada em abril, e que foi bastante criticada por não obrigar os
privados a participarem do esforço, já que abriria caminho a que os
países endividados não pagassem aos credores oficiais e bilaterais
(países e instituições multilaterais financeiras) e continuassem a
servir a dívida privada.Este Enquadramento
pretende trazer todos os agentes da dívida para o terreno, incluindo os
bancos privados e públicos da China, que se tornaram os maiores
credores dos governos dos países em desenvolvimento, nomeadamente os
africanos.