Florestas estão a perder capacidade de retirar dióxido de carbono da atmosfera
4 de mar. de 2020, 17:27
— Lusa/AO online
A
investigação liderada pela universidade britânica de Leeds, publicada na revista Nature, revela que as florestas tropicais começaram a
passar de depósitos de dióxido de carbono para emissores daquele gás que
provoca o efeito de estufa.As florestas
tropicais sequestram o carbono, retirando-o da atmosfera e depositando-o
nas árvores, combatendo assim lentamente as alterações climáticas, mas
os novos dados indicam que essa capacidade atingiu o seu pico na década
de 1990 e tem vindo a diminuir. A equipa
de cientistas analisou três décadas de crescimento e morte de árvores em
65 florestas tropicais virgens em África e na Amazónia e chegou à
conclusão que na década passada, a capacidade de sequestro de carbono da
floresta diminuiu em um terço, o que acontece porque mais árvores
morrem e a floresta perde a capacidade de capturá-lo. Mais
de 100 instituições colaboraram na investigação que demonstra pela
primeira vez em larga escala que já está a acontecer uma perda
preocupante num modelo que normalmente se considerava a salvo nas
próximas décadas. O aumento de dióxido de
carbono na atmosfera favorece o crescimento de árvores, "mas a cada ano
este efeito está a ser neutralizado pelos impactos negativos das
temperaturas altas e das secas que atrasam o crescimento das árvores e
as podem matar", afirmou o investigador e principal autor do estudo,
Wannes Hubau, da Universidade de Leeds, no norte de Inglaterra."Combinando
dados de África e da Amazónia, começámos a perceber porque estão estas
florestas a mudar, principalmente por causa dos níveis de dióxido de
carbono, das temperaturas, secas e das dinâmicas florestais",
acrescentou.O que os dados mostram é "um
declínio futuro a longo prazo" em África e que a Amazónia "continuará a
enfraquecer rapidamente" até se tornar uma fonte de carbono em meados da
década de 2030.Na década de 1990, as
florestas tropicais virgens retiraram cerca de 46 mil milhões de
toneladas de dióxido de carbono da atmosfera, descendo para 25 mil
milhões de toneladas na década de 2010. O
que se perdeu é o equivalente ao que França, Alemanha, Reino Unido e
Canadá emitem em conjunto durante dez anos para a atmosfera pelo consumo
de combustíveis fósseis.Em percentagem,
de 17% das emissões provocadas pela atividade humana retiradas na década
de 1990, passou-se para apenas 6% vinte anos depois.As
florestas perderam 33% da sua capacidade de reter dióxido de carbono e a
área de floresta intacta diminuiu 19%, enquanto as emissões aumentaram
46%.O investigador Simon Lewis, da
faculdade de geografia da Universidade de Leeds, notou que "as florestas
tropicais intactas continuam a ser um sequestrador de carbono vital,
mas sem políticas que permitam estabilizar o clima da Terra é apenas uma
questão de tempo até já não serem capazes de absorver dióxido de
carbono".As perdas começaram primeiro na Amazónia em meados dos anos 90, enquanto em África começaram quinze anos mais tarde.A
diferença explica-se por as florestas amazónicas serem mais dinâmicas
que as africanas e estarem mais sujeitas a impactos climáticos fortes,
com temperaturas mais altas, com subidas rápidas, e secas mais severas e
frequentes.Os autores ressalvam que as
florestas tropicais ainda são enormes reservatórios de carbono,
armazenando 250 mil milhões de toneladas só nas árvores, o que equivale a
90 anos de emissões globais geradas pelo consumo de combustíveis
fósseis.O investigador camaronês
Bonaventure Sonké, da Universidade Yaounde I, afirmou que "os países
africanos e a comunidade internacional terão que investir seriamente na
preparação para os impactos atuais das alterações climáticas nas regiões
tropicais".Outro cientista da
Universidade de Leeds, Oliver Phillips, acrescentou que é preciso apoiar
o trabalho dos cientistas de África e da Amazónia, cujas "capacidades e
potencial têm sido menosprezados"."Caberá
à próxima geração de cientistas africanos e da Amazónia vigiar estas
florestas notáveis para ajudar a geri-las e protegê-las", considerou.Os perigos mais urgentes são a desflorestação, a indústria madeireira e os incêndios.