Fisioterapeuta relata “tom intimidatório” e de “ameaça” de Bruno de Carvalho
19 de dez. de 2019, 12:57
— Lusa/AO Online
A testemunha foi ouvida na 15.ª sessão
do julgamento da invasão à academia ‘leonina’, em 15 de maio de 2018,
com 44 arguidos, incluindo o antigo presidente do clube Bruno de
Carvalho, que decorre no Tribunal de Monsanto, em Lisboa.A
testemunha descreveu ao coletivo de juízes, presidido por Sílvia Pires,
o ambiente em que decorreu a reunião no Estádio José de Alvalade, em 14
de maio de 2018, um dia após a derrota com o Marítimo, na Madeira, por
2-1, que atirou o clube para a terceira posição do campeonato, falhando
dessa forma o possível acesso à Liga dos Campeões.“Fiquei
sem perceber qual era o objetivo da reunião. Ele [Bruno de Carvalho]
referia constantemente: ‘aconteça o que acontecer amanhã, quem é que
está com esta direção, quem não estiver que saia da sala. Em tom
intimidatório e [de] ameaça. Repetiu essa frase várias vezes a olhar nos
olhos”, respondeu o fisioterapeuta, às questões da procuradora do
Ministério Público.Questionado minutos
depois por Miguel Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho, sobre se o tom
do antigo presidente nessa reunião não era o que sempre teve, a
testemunha disse que não.“Não era o tom
habitual dele. Olhou-nos nos olhos e disse: ‘Independentemente do que
acontecer, vamos ver quem é que vai estar com esta direção’. Senti-me
intimidado, isto foi em tom intimidatório”, reiterou Ludovico Marques.O
fisioterapeuta estava no balneário quando ouviu ameaças como ‘joguem à
bola, vamos rebentar-vos a boca toda, vamos matar-vos, não ganhem, que
depois vão ver’, frases ditas no exterior do edifício da ala
profissional de futebol e repetidas no interior do balneário, onde
entraram “talvez 30 indivíduos de cara tapada”.O
fisioterapeuta foi agredido com um objeto na cara, teve de receber
tratamento hospitalar e ficou com o “olho inchado e negro” durante 15
dias.“Sim, obviamente [ficou com receio].
Nos dias seguintes não consegui dormir, tive insónias. Nos dias
seguintes não foi trabalhar. Tinha receio de ser agredido na rua, pois
alguns desses indivíduos tinham sido detidos, mas não todos”, afirmou a
testemunha.Ludovico Marques contou ainda que, alguns dias após a invasão, teve um ataque de ansiedade, que o levou ao hospital.A testemunha descreveu ainda em tribunal agressões a alguns dos jogadores levadas a cabo pelos invasores.“Dirigiram-se
logo a alguns jogadores e começaram a empurrar, aos socos, a dar
pontapés, gerou-se uma confusão massiva. Quatro a cinco elementos de
volta do William Carvalho, outros cercaram o Acuña, deram murros,
chapadas e pontapés. Ao meu lado estava o Bruno César, que também foi
empurrado. Eu fui atingido na cara, fiquei tonto e baixei a cabeça.
Quando levanto a cabeça, vejo três elementos a agredir o Battaglia e um
deles a mandar um garrafão de água para cima dele. Tentou defender-se e
recuou para um canto”, explicou a testemunha.Para Ludovico Marques, os elementos só tinham o “objetivo de agredir e ameaçar” e nunca tentaram parar as agressões.“Todos
eles [os invasores] estavam em movimento, uns a empurrar, outros a
agredir. Não conseguíamos sair dali, pois eles entravam pela única porta
disponível. Estávamos encostados às paredes e não havia forma de sair
dali”, acrescentou Ludovico Marques, que também indicou terem sido
lançadas duas tochas acesas, uma delas para o meio dos jogadores, no
balneário.O julgamento prossegue na tarde
de hoje, com a continuação da inquirição do médio Battaglia e a audição
do defesa Sebastien Coates, estes por videoconferência, a partir do
Tribunal do Montijo.