Finanças encontraram mais de 75.000 documentos relativos a pagamentos do INEM a bombeiros por validar
29 de set. de 2025, 10:31
— Lusa/AO Online
Na
auditoria pedida pelo Governo ao Instituto Nacional de Emergência Médica
(INEM), a que a Lusa teve acesso, a IGF fala de falta de transparência,
deficiente prestação de contas por parte dos beneficiários dos apoios
financeiros (bombeiros e Cruz Vermelha) e da ausência de “uma avaliação
efetiva dos serviços prestados/resultados alcançados”.Alerta
ainda para a possibilidade de incumprimento contratual por parte dos
parceiros do Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM).A
auditoria da IGF, que analisou sobretudo o período 2021/2024, diz que o
financiamento dos bombeiros e Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) assentou
em protocolos e despachos avulsos e regimes diversos, incluindo casos
“sem evidente enquadramento normativo” e aponta “fragilidades
relevantes” no processos de conferência dos subsídios pagos pelos meios
protocolados.Sobre os 75.492 documentos
(verbetes) pendentes de preenchimento pelos parceiros ou de
conferência/validação pelo INEM (69.512 e 5.980, respetivamente), indica
que os mais antigos datam de 2022 e que o instituto se comprometeu a
desenvolver uma plataforma para resolver e evitar estas situações.Diz
ainda que não estão previstos mecanismos de comunicação com outras
entidades públicas que também concedam subvenções aos bombeiros e CVP,
apesar do "risco de duplo financiamento e sobreposição de apoios
financeiros".Segundo o documento, as
transferências correntes do INEM aumentaram nos quatro anos analisados,
representando no ano passado 53% (89,2 milhões de euros) da despesa
total.Estas transferências referem-se
maioritariamente aos pagamentos associados à constituição e manutenção
de Postos de Emergência Médica (PEM) e Postos de Reserva (PR), sendo as
Associações Humanitárias de Bombeiros Voluntários (AHBV) as principais
entidades destinatárias (74,9 milhões, em 2024), comparativamente aos
outros intervenientes, como os municípios e a CVP.Considerando
os dados dos primeiros quatro meses deste ano, a IGF admite que poderá
vir a ser necessário um reforço do financiamento público ou, em última
instância, uma alteração normativa que aumente a percentagem atribuída
ao INEM sobre os prémios de seguros, para garantir o equilíbrio
orçamental.“Face à atual tendência da
execução da despesa de 2025 e aos novos encargos assumidos, a estimativa
da receita própria atualmente prevista (2,5% dos prémios ou
contribuições relativas a contratos de seguros, conforme estipulado na
respetiva Lei Orgânica) poderá revelar-se insuficiente para cobrir todas
as necessidades financeiras do INEM, incluindo as decorrentes do
reforço previsto de recursos humanos”, refere.A
utilização dos saldos de gerência anterior também poderá revelar-se
essencial para garantir o adequado equilíbrio orçamental, acrescenta.Segundo
a IGF, o custo do INEM para cada cidadão português aumentou mais de
45%, ao passar de 11 euros (2021) para 16 euros (2024). Por sua vez, o
custo por doente socorrido aumentou 29%, ao evoluir de 91 euros, em
2021, para 117 euros, no ano passado.Sem
alterações significativas na evolução da demografia portuguesa, a
tendência crescente do custo 'per capita' do sistema de socorro
pré-hospitalar resulta, em grande parte, das atualizações dos protocolos
com a Liga dos Bombeiros e dos aumentos dos preços dos bens e serviços,
refere a IGF, que aponta a necessidade de identificar poupanças para
“uma gestão de meios mais económica”.Quanto
ao novo acordo de cooperação assinado já este ano com a Liga dos
Bombeiros Portugueses, a IGF estima um impacto financeiro de 25,2
milhões de euros, sublinhando que não está totalmente acomodado no
orçamento de 2025, podendo ser necessário um reforço orçamental.Lembra
igualmente que este acordo está dependente da realização de estudos e
da adaptação dos registos e sistemas essenciais, como a aplicação das
penalidades previstas”. Quanto aos
requisitos da tripulação e à certificação de ambulâncias, aponta a falta
de procedimentos sistematizados e regulares para a avaliação da
atividade dos PEM e PR, incluindo quanto à eficácia e qualidade do
socorro pré-hospitalar.Acrescenta que em
2023 e 2024 houve mais de 2.000 recusas de acionamento de meios e mais
de 18.000 casos de inoperabilidade, referentes a falhas no cumprimento
dos protocolos, que não previam quaisquer penalidades para estas
ocorrências.