“Filipe” está de férias, mas vive numa carrinha (Com vídeo)
Hoje 09:25
— Daniela Carreira
“Filipe” (nome fictício) está de férias, não sabe bem por quanto tempo ou se vai sequer voltar ao trabalho, a empresa onde está ainda precisa de tempo para analisar o que poderá ser feito, tendo em conta as sequelas que um acidente deixou. Enquanto isso, desespera pelo futuro e tenta recuperar do acidente que sofreu. Dorme num colchão que tem como base um escadote, dentro de uma carrinha estacionada num parque público em Ponta Delgada, e noites em que chove muito, acorda com o colchão molhado.Tem 52 anos, passou grande parte da vida nos Estados Unidos, construiu uma vida lá, mas por motivos pessoais voltou para São Miguel em 2020. Encontrou emprego facilmente, alguns dias depois de ter chegado. As coisas estavam a correr bem até abril de 2024, quando ao regressar a casa de bicicleta, depois de um dia de trabalho, sofreu um acidente. Foi encontrado inconsciente na estrada, com um ferimento grave na cabeça, depois disso, seguiram-se semanas de recuperação e cerca de 60 sessões de fisioterapia. Desse dia não ficou nada: “Não me lembro de nada. Vejo fotografias no telemóvel, mas não me lembro”, diz. Fala com energia, mas faz algumas pausas, às vezes perde o fio à meada e tenta dizer tudo ao mesmo tempo e depois recomeça. Em conversa, fala de conflitos familiares e laborais. Mostra que está confuso.A carrinha é verde, um modelo de 1999, estava quase abandonada quando a comprou: “Era para vender às peças, mas acabei por arranjá-la para poder circular e ter onde ficar.” Lá dentro tem um colchão, uma mota, uma bicicleta, ferramentas, roupa e um espaço que serve de cozinha. Ele próprio fez o teto, tratou do motor e pintou: “Estou sempre a tentar melhorar qualquer coisa”, diz. O espaço está organizado com uma atenção quase obsessiva, como se a ordem ali dentro fosse a única forma de manter a rotina.Depois do acidente, o dinheiro do seguro e da baixa aproximava-se do salário mínimo e, por isso, conseguiu manter a casa arrendada por algum tempo. Quando o apoio diminuiu, deixou de ter o valor suficiente para pagar, pediu ajuda à Segurança Social e foi encaminhado para uma casa de acolhimento, onde ficou uma semana: “Eu não queria apanhar a ‘doença da droga’. Tomava banho no mesmo sítio que eles. Eu não pertencia ali, eu sofri de um acidente”, explica. Depois encontrou um quarto, mas sem recibo não conseguiu pedir apoio aos serviços sociais. Além disso, conta que a casa de banho era partilhada e notava que a torneira ficava sempre na mesma posição em que ele a deixava: “As outras pessoas não tomavam banho, não havia higiene. Tinha de limpar tudo para conseguir usar, preferi dormir na carrinha, é mais limpo aqui".De manhã vai aos balneários do Pesqueiro tomar banho. Lava a roupa numa lavandaria perto da universidade e a loiça por cima de uma tampa de esgoto para não sujar o alcatrão de gordura. Urina numa garrafa com a ajuda de um funil e usa sacos de lixo para os dejetos. Esta é a sua rotina, parece ter sido construída ao pormenor. Ao longo do dia faz melhorias na carrinha, incluindo armadilhas para quem, um dia, tentar assaltar aquele abrigo.Depois do acidente, ficou com cerca de 11% de incapacidade e não pode voltar a fazer o que fazia, uma vez que é considerado trabalho pesado, mas diz que se sente capaz de trabalhar e que sabe fazer várias coisas. Por agora, está à espera da decisão da empresa que está prevista para depois de 24 de abril e, até lá, continua de férias, uma vez que ainda está a ser discutido que tarefas pode desempenhar a partir deste acidente.A Câmara Municipal de Ponta Delgada confirmou que “Filipe” é acompanhado pela equipa de rua, já foi visto por uma assistente social e apresentou candidatura aos concursos de habitação municipal. As respostas são escassas e “Filipe” mostra que o que leva alguém a viver na rua não é só o consumo de substâncias, mas também situações inesperadas, conflitos e a saúde mental.