Filhos são os principais agressores de idosos nos Açores
2 de out. de 2025, 09:28
— Filipe Torres
Entre janeiro e agosto deste ano foram identificados 49 casos de
violência contra idosos nos Açores, de acordo com dados da Associação
Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).A maioria das situações envolve
filhos e filhas como principais agressores, sendo a violência
financeira a forma mais comum, muitas vezes acompanhada de violência
psicológica e, em alguns casos, também de violência física. Em
declarações ao Açoriano Oriental, a gestora do gabinete da APAV nos
Açores, Silvia Branco, explica que este fenómeno tem vindo a ganhar
maior expressão nos últimos anos e tornou-se particularmente evidente
após a pandemia. Ainda assim, a responsável ressalta que não dispõe de
dados concretos sobre os perfis das vítimas, podendo apenas reportar-se
às situações que chegam ao conhecimento da delegação regional da
associação.Segundo refere, foi a partir da pandemia que muitos idosos
acolheram os filhos em casa, devido a dificuldades financeiras. Essa
coabitação, que à partida surgiu como uma solução de apoio familiar,
acabou em várias situações por transformar-se em cenário de violência.De
início, o problema manifesta-se de “forma subtil”, através da falta de
colaboração dos filhos no pagamento das despesas do agregado. Muitos
idosos não reconhecem este comportamento como violência financeira,
encarando-o antes como uma dificuldade temporária. Só mais tarde, com o
apoio da APAV, percebem que estão perante um padrão de abuso. Quando
o agressor apresenta consumos de droga, os pedidos de dinheiro
tornam-se mais frequentes e diretos e, perante uma recusa, surgem
episódios de coação, ameaça e agressões. A violência física não é a mais
representativa neste grupo de vítimas, mas a psicológica e a financeira
têm peso marcante.Apesar de existirem casos em que o contacto com a
APAV é feito diretamente pelo idoso, muitas vezes são vizinhos,
familiares ou conhecidos que pedem ajuda em nome da vítima. Quando isso
acontece, Silvia Branco afirma que a situação já escalou em frequência e
intensidade. Os sinais de alerta passam por mudanças de comportamento,
como o recurso inesperado a pedidos de dinheiro.Os números revelam
ainda que os Açores apresentam um registo superior ao da Madeira no que
toca a casos de violência contra idosos - apresentam sete casos. Silvia
Branco justifica esta diferença, em parte, pela ausência de serviços de
proximidade na Madeira, que poderá levar a uma subnotificação de
situações de abuso. Nos Açores, a gestora afirma que a presença
direta da APAV facilita a denúncia e o acompanhamento das vítimas. Ainda
assim, a violência conjugal continua a existir, embora hoje se destaque
menos do que no passado. Segundo a responsável, muitas vítimas não
querem que os filhos sejam julgados ou condenados, mas sim que recebam
tratamento para problemas de dependência. A APAV sensibiliza os idosos
para os riscos de manterem silêncio e para as vantagens de formalizar
uma denúncia. Silvia Branco sublinha ainda a importância de combater
o isolamento em que muitas vítimas idosas vivem. Destaca a necessidade
de uma comunidade mais atenta e solidária, capaz de identificar sinais
de abuso e de não ignorar comportamentos que indicam que um idoso pode
estar em risco. Por fim, considera urgente cultivar uma cultura de atenção e responsabilidade coletiva.Retrato nacionalO
relatório da APAV evidencia que, entre janeiro e agosto de 2025, 1.557
pessoas idosas foram apoiadas na sequência de situações de crime e
violência, sendo que cada uma sofreu, em média, dois crimes em
simultâneo, num total de 2.861 ocorrências. A maioria das vítimas é
do sexo feminino (75%), enquanto os homens representam cerca de 25% dos
casos. A violência doméstica é a forma mais prevalente, representando
81% das situações reportadas, seguida de ofensas à integridade física e
outros crimes como burla, difamação e maus-tratos em contexto
institucional.Em termos de perfil etário, as vítimas concentram-se
sobretudo entre os 65 e os 79 anos, refletindo um grupo etário
particularmente vulnerável ao impacto da violência. Geograficamente,
Lisboa (20,9%), Braga (16,1%), Porto (12%) e Faro (13,6%) aparecem como
os distritos com maior número de ocorrências.O perfil das pessoas
agressoras mostra uma predominância masculina (57,8%), ainda que cerca
de um quarto sejam mulheres. A relação entre vítima e agressor revela
padrões preocupantes: em 33,5% dos casos, os agressores são filhos/as,
seguidos de cônjuges (22,8%) e netos/as (4,2%).Por fim, os dados
indicam que a maioria das situações ocorre em residências comuns (53,9%)
ou no lar da própria vítima (28,1%), mas também em via pública,
instituições de acolhimento e até através da internet ou telefone.