Federação Nacional dos Médicos critica portaria por oficializar externalização no SNS
Hoje 11:33
— Lusa/AO Online
Em
causa está a portaria n.º 135/2026, assinada pela ministra da Saúde, Ana
Paula Martins, que regulamenta o Sistema Nacional de Acesso a Consulta e
Cirurgia (SINACC), substituindo o Sistema Integrado de Gestão de
Inscritos para Cirurgia (SIGIC).A
portaria, que entrou em vigor na quarta-feira, prevê um mecanismo de
externalização, permitindo encaminhar utentes para outras unidades com
capacidade disponível, mediante consentimento do doente.Para a Federação Nacional dos Médicos (Fnam), este diploma não resolve as listas de espera, organiza a sua transferência.“Trata-se
de uma opção política que, perante a degradação da resposta pública,
abre caminho à dependência do setor privado, desviando recursos do SNS
sem reforçar a sua capacidade instalada”, alerta em comunicado. A
federação sublinha que a portaria “representa uma mudança estrutural na
forma como o acesso a consultas, cirurgias e tratamentos é organizado
no Serviço Nacional de Saúde (SNS), institucionalizando a externalização
como resposta aos atrasos do serviço público”. A
Fnam alerta que esta opção surge “num contexto particularmente
preocupante”, nomeadamente na oncologia, área em que existe “um
incumprimento generalizado dos tempos máximos de resposta garantidos”,
segundo os dados mais recentes da Entidade Reguladora da Saúde.“Mais
de metade das primeiras consultas oncológicas são realizadas fora do
prazo legal e, ainda mais grave, mais de 70% dos doentes em espera já
ultrapassaram esses limites”, sublinha a federação sindical em
comunicado.A Fnam afirma que o Governo em
vez de responder a este problema com investimento, reforço de equipas e
melhoria das condições de trabalho, opta por criar mecanismos
automáticos de encaminhamento de doentes para entidades externas, sempre
que se atinge um determinado “ponto crítico”. Para
a Fnam, “este modelo faz depender o acesso a cuidados da
disponibilidade do mercado e não da capacidade do SNS”, avisando que a
externalização pode ser desencadeada automaticamente pelo sistema
informático, afastando a decisão clínica e transformando a gestão de
doentes numa lógica administrativa. “O
alegado consentimento do utente ocorre num contexto de ausência de
alternativa real, uma vez que a escolha é feita perante a incapacidade
do SNS em garantir resposta atempada”, sustenta.Alerta
ainda que estão ainda previstos mecanismos que permitem suspender a
contagem dos tempos de espera ou cancelar inscrições por motivos
administrativos, criando o risco de ocultação dos tempos reais e de
exclusão de utentes das listas sem resolução efetiva do seu problema
clínico. “Por outro lado, os dados
disponíveis mostram que a externalização não resolve o problema de
fundo: a atividade no setor privado é residual na oncologia e, mesmo nos
circuitos alternativos, persistem níveis elevados de incumprimento dos
prazos”, realça a federação. A Fnam
defende que a resposta aos atrasos no acesso deve passar por
investimento sério no SNS, pela valorização dos médicos e demais
profissionais de saúde e pelo reforço da capacidade assistencial
pública, e não pela normalização da externalização como solução
estrutural.