Federação das Pescas dos Açores exige igualdade no acesso às áreas protegidas
22 de set. de 2025, 15:43
— Lusa/AO Online
“O
‘big game fishing’ e as empresas marítimo-turísticas são as únicas que
podem operar nas novas áreas marinhas protegidas, e eu sou solenemente
contra, porque, se é 'no take' é 'no take' e 'no use', que é o que
acontece no mundo inteiro”, disse Jorge Gonçalves, ouvido na
Comissão de Assuntos Parlamentares, Ambiente e Desenvolvimento
Sustentável, reunida em Ponta Delgada.A
audição da Federação das Pescas dos Açores no parlamento açoriano ocorre
a propósito de uma proposta apresentada pelo grupo parlamentar do PS,
que defende que seja criada uma exceção para a pesca de atum, com a arte
de “salto e vara”, nas novas áreas marinhas protegidas, que entram em
vigor a 01 de janeiro de 2026.“Para
operarem nesses locais, as embarcações teriam de ter monicap
[equipamento de cobertura global para monitorização das atividades de
pesca], teriam de ter observador a bordo e teriam de estar licenciadas
apenas para a pesca de salto e vara, não podiam ter mais nenhum tipo de
licenciamento. Esta é a nossa proposta, fizemo-la e continuamos a
mantê-la”, explicou Jorge Gonçalves, em declarações aos deputados.No
seu entender, a atividade de pesca de atum que se faz nos Açores, com a
arte de pesca de salto e vara, já é suficientemente seletiva e amiga do
ambiente, além de que os bancos de pesca que a partir do próximo ano
vão ficar proibidos às atividades extrativas (Ilhéus das Formigas, Banco
Princesa Alice, Banco D. João de Castro e Banco Condor), "não têm
importância em matéria de reprodução das espécies".“Eu
aí, seria dos primeiros a dizer que não, que se devia proteger e que
devíamos ter alguma cautela com isto, mas não é! Nestas áreas não se
verifica qualquer desova ou procriação”, frisou o presidente da
Federação das Pescas, que entende que a proibição da captura de atum
nesses locais vai trazer graves consequências ao setor.Jorge
Gonçalves defende também que os apoios que vierem a ser atribuídos aos
profissionais da pesca dos Açores, pela previsível perda de rendimentos,
devido à entrada em vigor das novas áreas marinhas protegidas, devem
abranger não apenas os armadores, mas também os pescadores e o setor da
comercialização.“Este processo só tem
consenso, da nossa parte, se todo o setor for contemplado. Desde a
produção, que envolve os armadores e os pescadores, por que não podem
ficar de fora os pescadores, e também a comercialização, que, ao fim ao
cabo, são os que dão valor àquilo que é o nosso produto, o nosso esforço
e o nosso trabalho”, insistiu o dirigente federativo.Por
tudo isto, Jorge Gonçalves deixou uma crítica à classe política durante
a audição parlamentar, lamentando que os dois principais partidos
políticos com assento parlamentar nos Açores (PSD e PS), não tenham
chegado a um entendimento em relação a esta matéria.“Os
decisores políticos, tanto o Partido Social Democrata, como o Partido
Socialista, deviam ter chegado a consenso sobre esta matéria. Eu acho
que estar a empurrar esta importantíssima decisão para o setor pesqueiro
não é muito bom, não é saudável”, frisou.O
parlamento dos Açores aprovou, em outubro de 2024, um projeto
apresentado pelo Governo dos Açores, que permitiria aumentar para 30 por
cento as áreas marinhas protegidas no arquipélago, (cerca de 300
quilómetros quadrados), metade dos quais em regime de “proteção total”,
alegadamente em acordo com os armadores, pescadores e comunidades
piscatórias.O objetivo era aumentar a
preservação dos recursos marinhos, reduzir as atividades extrativas e
tornar mais sustentável o uso do espaço marítimo nas ilhas, mas a
medida, que devia entrar em vigor a 01 de outubro de 2025, foi,
entretanto, adiada para 01 de janeiro de 2026, e está ainda longe de
gerar consensos.