Fazer música como quem conta uma história (Com Vídeo)
Hoje 14:35
— Daniela Arruda
“Se a gente não brincar, a gente deixa de ser miúdo e a vida brincada é melhor do que a vida sem brincar”, é assim que o compositor Itiberê descreve a forma como se cria música. Este é o ponto de partida para o que acontece na sala de ensaios, muitas tentativas, recomeços e notas que levam tempo a afinar, é assim que nasce a música que sobe ao palco da Aula Magna da Universidade dos Açores, esta sexta-feira, no âmbito do Festival Tremor.Para o artista convidado, a música é uma conversa: “É perguntar de um lado e responder do outro”, explica durante o ensaio. É um diálogo entre guitarras, violinos, sopros e silêncios, onde cada grupo de instrumentos conta parte de uma história bonita e comum.O processo é espontâneo, Itiberê primeiro conhece os músicos, depois lança um ritmo no teclado e começa a distribuir notas. Aos poucos, cada grupo decora a sua fala da história, sendo esta também uma aprendizagem de paciência e persistência. Enquanto o artista dá notas aos violinos, quem está nas guitarras aguarda para que chegue a sua vez de fazer parte da história.Três dos temas que que vão ser apresentados hoje foram preparados antecipadamente, já existiam, mas houve espaço para o improviso. Itiberê tinha como ponto de partida a orquestra da Escola de Música de Rabo de Peixe, e daí foi criada uma nova composição construída por todos.A Escola de Música de Rabo de Peixe conta com 53 alunos, dos cinco aos mais de quarenta anos. Esta é uma escola onde a música é uma ferramenta de inclusão, aprendizagem e expressão para a comunidade local.A colaboração da escola com o Festival Tremor não é novidade, aliás, quase que já se pode ser considerada uma tradição: “Enquanto continuar a funcionar bem, vai continuar”, afirma Lázaro Raposo, presidente e professor da escola de música.Alguns participam pela primeira vez no espetáculo e outros já conhecem os cantos à casa. Afonso, de 12 anos, toca flauta transversal e quis voltar a fazer parte deste espetáculo, esta é a sua segunda participação e conta que “este ano também está a ser bom”.Miguel, também de 12 anos, divide-se entre a guitarra e a bateria, mas é na percussão que sobe ao palco. Conta que começou na música por influência da família, diz que esta experiência “dá mais vontade de tocar” e mais ritmo.Já Luís, de 16 anos, pode ser considerado um veterano. Toca saxofone tenor há oito anos e esta é a quarta vez que participa no Tremor: “É uma experiência boa” e sublinha a oportunidade de aprender formas diferentes de tocar e de conhecer outros músicos. Garante ainda que este ano o espetáculo vai ser “mais mexido”.Mas nem só de repetentes se faz o espetáculo. É a estreia de Lara, de 12 anos, sabe tocar guitarra, mas foi com o piano que sentiu confiança para integrar a orquestra no festival. Sobre as expectativas para a apresentação imagina que “as cortinas vão abrir e nós vamos estar lá, que vai estar tudo direitinho. Estou com uma expectativa bem alta, que vai correr bem”.Nem todos os alunos sobem ao palco, uns estão de férias, outros fora da ilha e também há quem esteja ainda numa fase inicial da aprendizagem. Com espírito de inclusão, o projeto este ano abriu portas à comunidade, com a participação de músicos de outras escolas e também do conservatório, através de uma open call.O resultado é um mosaico sonoro diversificado, onde diferentes níveis, idades e percursos se cruzam e contam uma história em conjunto.Iteberê explica que mais do que ensinar notas, quer deixar como “semente” a liberdade de arriscar, errar e criar: “O que é ser músico hoje? É seguir o coração”, defende. O seu projeto de vida, “Sementeira do Som”, concretiza essa ideia: “Eu vim jogar sementes onde a terra está fértil e aqui está muito fértil”, referindo-se à orquestra, “estão embrionários só”. Explica que no corpo físico ainda falta evoluir, mas “no espírito, eles já são inteiros”.