Famílias de classe média e imigrantes fazem crescer pedidos de ajuda no Porto
8 de mai. de 2023, 11:57
— Lusa/AO Online
A
inflação, o custo da habitação e a subida das taxas de juro, apontam
associações contactadas pela Lusa, estão a obrigar novas franjas da
população a procurar apoio alimentar, ajuda que é normalmente solicitada
por pessoas em situação de pobreza ou sem-abrigo.Tendo-se
especializado, nos últimos anos, na área da saúde, apoiando atualmente
cerca de 600 famílias, a Caritas Diocesana do Porto retomou no início do
ano a disponibilização de cabazes com produtos essenciais perante o
aumento dos pedidos de ajuda.À Lusa, o
presidente da instituição, Paulo Gonçalves, revelou que, de forma
direta, no primeiro trimestre do ano foram ajudadas mais 300 famílias
(cerca de 100 por mês), 56% das quais de cidadãos estrangeiros. “Neste
momento, estamos a apoiar 102 famílias mensalmente, [o que representa
um] incremento de 20% em relação ao mês passado”, disse, explicando que
este é um apoio de emergência, que não se repete, sendo depois estas
famílias encaminhadas para outras instituições parceiras para um apoio
mais regular e permanente.O responsável
identifica dois perfis na procura destes apoios: no primeiro, a que
chama de “pobreza envergonhada”, cabem famílias que até tinha a sua vida
estruturada e que de um momento para o outro têm de escolher entre
pagar a prestação ou renda da casa ou colocar comida na mesa.Já
por outro lado, acrescenta, têm chegado à Cáritas muitos pedidos de
cidadãos estrangeiros provenientes da Ucrânia, Países Africanos de
Língua Oficial Portuguesa (PALOP), norte de África (Marrocos, Tunísia) e
América do Sul (Argentina, Colômbia, Chile).Uma
realidade também relatada pelo responsável pelo projeto ‘Porta
Solidária’, Rubens Marques, onde o número de pedidos de ajuda também tem
vindo a ser engrossado por famílias de classe média e média baixa,
migrantes e idosos.“O número de utentes
tem aumentado muito. Têm aumentado as famílias que vem buscar a refeição
em ‘take away’, para que as crianças não tenham de almoçar nas nossas
instalações, e também os que fazem as refeições na cantina” da
instituição, sobretudo “devido aos migrantes”, detalhou.Em
março, revelou, das 343 pessoas que faziam refeições nas instalações do
projeto, 177 eram cidadãos estrangeiros, número que, entretanto, já
aumentou. São maioritariamente da América Latina, destacando-se os de
nacionalidade brasileira (55), da Argélia e dos PALOP.“Depois,
aumentaram as famílias devido aos juros. Temos famílias onde pelo menos
um trabalha, mas um ordenado não chega para sustentar a família durante
o mês”, referiu.Aberto desde 2009, o
projeto da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, da Diocese do Porto,
serviu, em 2022, 119.223 refeições e até 31 de março 30.205, um número
que o pároco diz não ter dúvidas de que vai continuar a aumentar.A perceção da realidade é a mesma no projeto Coração da Cidade, departamento de apoio social da Associação Migalha de Amor. A
organização sem fins lucrativos é clara: no primeiro trimestre do ano,
os pedidos de ajuda aumentaram cerca de 30%, com mais gravidade nas
últimas três semanas.Carlos Duarte,
responsável pela área social, diz que a lista foi engrossada por “muitos
imigrantes” - sobretudo marroquinos, brasileiros e ucranianos -, por
famílias de classe média e média-baixa e idosos com pensões mínimas.Os pedidos, frisa, chegam todos os dias, sendo já 2.700 as famílias alimentadas todas semanas pelo Coração da Cidade.“Não
é fácil”, reconhece Carlos Duarte, que revela que, devido à crise, o
valor da ajuda diminuiu e está mais difícil encontrar novos parceiros.A
instituição disponibiliza ainda ajuda para aquisição de medicamentos.
Através de um protocolo com uma farmácia local, os beneficiários podem
levantar os medicamentos gratuitamente. Também aqui o número de pedidos
aumentou.Para os responsáveis, esta realidade tende a agravar-se.