Teve como primeiro presidente da
direção Fernando Adriano Costa mas há outros nomes indissociáveis
do nascimento do reconhecido clube, como Miguel Côrte-Real
Monjardino e João Guiod Castro. Ao longo de três décadas, a
instituição tem somado vitórias, conquistado o seu lugar em
patamares superiores da modalidade e feito a diferença na formação
de futuros adultos. Com a família do karaté angrense em
festa, estivemos à conversa com João Costa, atual presidente da
direção, para sabermos mais sobre a história do CKSAH, o presente
e também espreitar o futuro.De que forma e quando é que o karaté entra na sua vida?
O que é que o atraiu?
Iniciei a prática do karaté em 1977,
com 19 anos. Conheci a modalidade por acaso. Um grupo de praticantes
veio treinar para a Casa do Povo da Terra-Chã. Era orientado por
Ramiro Carrola, elemento graduado no karaté. Ao passar junto ao
espaço, chamou-me a atenção a aula e acabei por assistir.
Pedi para experimentar, aceitaram-me e, a partir daí, nunca mais
deixei a prática.
Este grupo em que me iniciei tinha
ligação com uma escola nacional orientada por Rui de Mendonça, já
falecido. Depois disso, tive a oportunidade de treinar, em Corroios,
outro estilo de karaté (goju-ryu). Na Cruz de Pau, também no
Continente, pratiquei kung-do-te, uma modalidade criada pelo mesmo
Rui de Mendonça. Na Terceira passei pelo kung-fu, sob orientação
de um alemão que veio viver para a ilha, mais tarde fiz
taekwondo e obtive a primeira graduação. Entre 1987 e 1988, treinei
karaté shotokan com um guineense, vindo de França trabalhar para a
reconstrução do sismo de 1980. O que me atrai no karaté é a busca
constante de uma perfeição que, sei bem, nunca vou alcançar, mas é
um desafio que ainda não posso deixar de perseguir. É uma paixão!
O trabalho “A História do Karaté
Açoriano e a Participação do CPK (Centro Português de Karate)”,
do sensei João Guiod Castro, aponta-o como o karateca açoriano há
mais tempo no ativo na Região. Tal só é possível com muita
dedicação, esforço e trabalho. Orgulha-se desta longevidade?Não posso garantir com 100% de certeza
mas é muito provável que o seja. Parece-me perfeitamente natural,
atendendo a que nunca fui uma pessoa acomodada, mas não o vejo como
um grande feito. Onde estava aquando da formação do
CKSAH?
Estava perto, treinava sozinho. Não
sabia da existência deste grupo inicial, em 1991, e creio que me
juntei a ele em 1992. Aquando da oficialização do clube permaneci
basicamente apoiando nos treinos.
Como foi o surgimento do clube?
O clube “nasce” em 1991 com o
treinador Miguel Côrte-Real Monjardino e, oficialmente, pela mão de
João Guiod Castro, em 1996. Como muitas outras coisas, que depois se
tornam grandes, este grupo começa sem grandes pretensões e por
simples carolice.
O CKSAH é a instituição de karaté
mais antiga da Terceira. Abriu novos caminhos, certamente com muitas
dificuldades, mas também beneficiou do fator novidade. Como foram
esses tempos iniciais?
Talvez a maior dificuldade foi
conseguir locais para treinos. Com o tempo e pelo reconhecimento das
organizações governativas, hoje dispomos de um lugar no Complexo
Desportivo do Estádio João Paulo II, cedido pelo executivo
açoriano. O karaté tem duas vertentes – a
tradicional e a desportiva – ambas desenvolvidas no clube. Este é um ponto de vista muito
discutível, porque há quem defenda que é tudo karaté. Certo é
que quando se quis criar uma modalidade competitiva, desportiva, sem
submeter as pessoas a momentos de maior “dureza”, houve a
necessidade de suavizar as técnicas, salvaguardando a boa forma mas
retirando a potência de impacto que normalmente têm. O clube
desenvolve as duas disciplinas, até porque o karaté desportivo
necessita do trabalho efetuado no karaté tradicional para
proporcionar uma boa forma aos praticantes.
É interessante constatar que há
famílias inteiras a praticar karaté no CKSAH - mãe, pai e filhos.
Criou-se aqui uma oportunidade de aproximação pela via da
modalidade enquanto desporto promotor da saúde. É um caso de
sucesso e que nada tem a ver com competição. Assiste-se cada vez mais a situações
destas e temos uma preocupação em manter o agregado familiar a
participar, criando classes para esse efeito. É gratificante,
enquanto presidente, ver a evolução dos vários elementos
trabalhando em conjunto.
Vamos desmistificar o que é o karaté.
Muitas vezes, há uma ideia de desporto agressivo.
O karaté como desporto não é
agressivo. É uma atividade perfeitamente controlada, com regras,
como qualquer outro desporto. O karaté como forma não desportiva,
se usado de forma indevida, pode ser muito perigoso, principalmente,
por quem domine a arte com eficiência. No entanto, durante a
aprendizagem, são incutidos valores que levam os karatecas a assumir
uma postura de controlo nas mais variadas situações. O karaté, pelas cinco máximas pelas
quais se rege, dá ensinamentos importantes para a vida. O CKSAH
assume essa função de escola de valores, de passagem de
ensinamentos, que têm a ver com a atitude que a pessoa deve ter na
sociedade e enquanto ser individual mas vai mais além. Estou a
lembrar-me, por exemplo, da sala de estudo no Complexo Desportivo do
Estádio João Paulo II, uma iniciativa vossa. Como referi na resposta anterior, são
incutidos valores nos praticantes, entre os quais destaco as máximas
do karaté: carácter, sinceridade, esforço, etiqueta e controlo. A sala de apoio e estudo é uma das
várias iniciativas implementadas pelo clube. Neste caso, os
praticantes aproveitam o seu tempo entre a escola e os treinos para
efetuar trabalhos e melhorar o rendimento escolar. Esta tem sido uma
preocupação do clube, pois queremos bons praticantes e bons
estudantes.
A pandemia veio pôr à prova, no
geral, a capacidade de adaptação. Houve que mudar, reinventar e o
karaté nunca parou para o clube. De que forma é que foi possível
consegui-lo?
Tínhamos de manter o grupo “ligado”.
Não foi tarefa fácil mas conseguimos, muito pelo trabalho e
dedicação do nosso diretor técnico, João Guiod Castro. Começámos
por aplicar planos de treino e, mais tarde, passámos às aulas
“online”, ambos para que os karatecas pudessem continuar a
praticar a partir dos seus lares.
E os treinos deram frutos. O resultado
mais visível foram as dez medalhas conquistadas nos campeonatos
nacionais da Federação Nacional de Karaté - Portugal no verão,
uma delas de ouro. Foi uma surpresa?
Os resultados vieram confirmar que a
continuidade do trabalho, apesar das condicionantes, valeu a pena.
Não é propriamente grande surpresa uma vez que os nossos
praticantes andam, com frequência, muito perto dos lugares de pódio.
Temos praticantes a treinar todos os dias e com muita dedicação. Trinta anos, cinco campeões nacionais,
cerca de três dezenas de cintos negros e várias distinções - só
este ano o diretor técnico foi homenageado em duas ocasiões: uma
pelo Governo Regional e outra pelo município de Angra do Heroísmo.
São números, resultados e reconhecimentos que fazem parte de uma
bela história que é a do CKSAH. Já é muito tempo. A modalidade é
exigente mas temos um trajeto bonito, com altos e baixos, como todos.
O processo de trabalho está bem definido e há pessoas dedicadas que
se complementam e não permitem que haja grandes quebras, quer nos
treinos quer na promoção da modalidade.
O reconhecimento ao nosso técnico João
Castro é inteiramente merecido. Também é de enaltecer o esforço
dos outros elementos graduados que contribuem para o sucesso desta
coletividade.
Neste momento, quantas pessoas estão
inscritas nas classes do CKSAH? Têm entre que idades? Quantos estão
federados? E quantos treinadores há?
Estamos com cerca de 100 praticantes,
entre os seis e os 66 anos, e todos federados; há mais de uma dezena
de treinadores no ativo.
Quais as principais dificuldades que o clube sente?
São em tudo semelhantes às dos outros
clubes da Região: a distância e as deslocações fora da ilha, para
participar em provas e formações. Os apoios são cada vez menores e só
com muito rigor e boa gestão se consegue fazer “esticar” o
dinheiro para garantir o básico.
O aniversário tem sido assinalado de
diversas formas. Mais recentemente, com um jantar de encontro do
passado, do presente e do futuro, nas suas palavras.
Foi a 12 de outubro o convívio
intergeracional, em que reunimos à volta da mesa aqueles que deram
início ao grupo, os que atualmente lhe dão vida e os que, fazendo
parte do presente, serão o futuro.
O CKSAH chega a este número graças a
um núcleo duro, o motor que coloca a engrenagem em movimento. O que
se perspetiva para os próximos anos?
Espero que ainda fiquemos por cá muito
tempo e que a passagem de testemunho se dê de forma natural e sem
percalços. Nenhum dos que pertencem ao núcleo duro, como lhe chama,
deixará o clube, a não ser por motivos de força maior. É de há muito costume ir chamando
para junto da direção os elementos graduados com disponibilidade e
já livres da sua formação académica. São ouvidos e a sua opinião
é tida como se se tratassem de um membro da direção. Assim,
mantemos o grupo ligado e damos espaço e importância àqueles que,
um dia, poderão dar continuidade ao clube.
Há alguns meses, o responsável pelo
Serviço de Desporto da Terceira referiu-se ao CKSAH como uma grande
família. Concorda?
Sim, é verdade. Este grupo tem dado
provas de que é realmente uma grande família com entreajuda
constante, com todos a remar para o mesmo lado, com ética, respeito
e observância pelas regras de boa relação entre os diversos
escalões etários. O respeito no karaté é pedra angular e não é
só num sentido, é mútuo e sincero.
O sensei João Costa lidera há sete
anos os destinos da instituição e tem mais um de mandato pela
frente. Em 2022 como será?
Costumo dizer, em tom de brincadeira,
que não quero ser o Pinto da Costa do karaté, com o devido respeito
que tenho por ele. Não faço questão de ficar como presidente por
muito mais tempo, porque acredito na renovação. É preciso dar
espaço a outros que possam trazer mais-valias e, felizmente, temos
gente com perfil para o cargo. No entanto, nunca deixaria o clube
numa situação desconfortável, se isso dependesse da minha
disponibilidade.
O que está ainda por fazer?
Temos um planeamento feito para a época
em curso que passa pela participação nas principais provas locais,
regionais e nacionais, tendo ainda prevista a presença em algumas
provas fora do âmbito federativo. A formação de árbitros e treinadores
é também uma preocupação sempre presente.
E porque o aniversário é motivo de
votos, o que deseja para o CKSAH?
Que este projeto tenha continuidade por
muitos mais anos. A todos quantos fizeram parte deste maravilhoso
grupo, os meus sinceros parabéns pela data alcançada e votos de que
aqueles que nos sucederem possam festejar outros tantos ou mais. E,
como objetivo para cada um de nós, que consigamos superar-nos sempre
e evoluir como indivíduos e como karatecas conscientes.