Falta de papel nos Açores "é transversal ao país todo"
2 de jun. de 2022, 17:38
— Lusa/AO Online
José Manuel Lopes de Castro adiantou ainda que há projetos à espera de saber se há papel ou não para saberem se arrancam.O
presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, João Palmeiro, disse
hoje à Lusa que já só há papel nos Açores para poucas semanas. Sobre
este tema, Lopes de Castro explicou à Lusa que os Açores têm algumas
unidades gráficas e os fornecedores estão no continente e enfrentam um
"duplo problema".Ou seja, "têm o problema
da falta do papel e o da logística transporte", explicou, referindo ter
conhecimento da situação, uma vez que são associados da Apigraf."Infelizmente
não estamos a ver solução para a falta de papel nos Açores", mas "ela é
transversal ao país todo, não é em zonas concretas, é no país todo",
sublinhou Lopes de Castro."O tema papel
permanece com poucas alterações, aparentemente com alguma estabilização
de preços, ainda não completamente, mas já está a estabilizar", mas "os
prazos de entrega continuam elevados, elevadíssimos, estamos a falar em
situações estranhas, estranhas do tipo entregamos para o ano que vem",
contou o responsável.O presidente da Apigraf salientou que se sente já "o efeito" da greve que "durou tempo demais" na Finlândia, na papeleira UPM.Sobre
a falta de papel, o presidente da Apigraf recorda que isso já se
registava desde o ano passado e que as razões resultam de "situações
complexas", como unidades produtivas que encerraram e "se encerraram a
capacidade deles saiu do mercado".Ainda do
ponto de vista europeu, há unidades produtivas "que mudaram o seu tipo
de produção dos chamados papéis gráficos" para papéis kraft. "E
porque é que mudaram? A pandemia disparou o comércio eletrónico, o
comércio eletrónico precisa de papel kraft para ser transportado pelo
mundo todo", mas "não se criaram empresas novas, foram as empresas
papeleiras que existiam que desviaram essa produção para o papel kraft",
explicou."Agora, é possível recuperar
isto? Tenho dúvidas porque num projeto de natureza papeleira estamos a
falar sempre de anos, portanto, qualquer solução não vai ser imediata",
considerou.Depois, veio a guerra entre a Rússia e a Ucrânia que agravou ainda mais a situação."Como
é óbvio, agravou mais ainda porque os dois países em causa, a Rússia e a
Ucrânia, têm uma interferência direta nesta matéria-prima: a Rússia
como fornecedor da madeira e a Ucrânia como fornecedor de amido, as duas
componentes para a produção da pasta", sublinhou Lopes de Castro.Instado
a fazer um balanço do primeiro semestre, o presidente da Apigraf disse
que ainda não tinha dados detalhados, mas que a informação que tem a
nível nacional "é que o setor da embalagem está estabilizado", que
inclui embalagem, rótulos, etiquetas.O
setor editorial "está em baixa", ou seja, as revistas, jornais ou livros
estão "em baixa comparativamente, por exemplo, com o ano passado",
disse.Estes são dados que "temos por sensibilidade", mas não estão trabalhados ao nível do Instituto Nacional de Estatística (INE)."Faremos
essa análise mais à frente", acrescentou, salientando que o que irá
acontecer na segunda metade do ano vai depender muito da evolução do
papel."Há projetos que estão à espera de
saber se há papel ou não. Se não houver papel esses projetos não saem e
isso vai refletir-se naturalmente nas contas do setor", apontou.Trata-se de projetos de media, editoriais, catálogos de empresas, muitos projetos de natureza gráfica.Por
exemplo, as empresas fazem normalmente um catálogo no mês de setembro,
se não houver papel não adiam, simplesmente não fazem, passando para o
ano seguinte. Outras podem apostar no digital como alternativa."Tenho
dito ultimamente que estamos numa tempestade perfeita porque de facto
são vários fatores a convergir tudo para o mesmo sítio e sem solução à
vista", rematou José Manuel Lopes de Castro.