Exposição nas Furnas retrata "invisibilidade do trabalho doméstico"
4 de mai. de 2022, 16:16
— Lusa/AO Online
A mostra intitulada
“Práticas Laboriosas do Enxofre”, que pode ser visitada até
segunda-feira no Centro de Monitorização e Investigação das Furnas, na
ilha de São Miguel, é um projeto do "Coletivo Corisca", formado por
Mafalda Araújo, Maria Novo e Sancha Castro, três artistas do continente
que desenvolvem projetos nos Açores.O projeto expositivo tem curadoria de Marina Rei (Reina del Mar) e sonorizaçao de Inês Malheiro.Esta
exposição retrata “a invisibilidade do trabalho doméstico e, ao mesmo
tempo, o desdobramento deste trabalho”, tendo como "ponto de partida" a
caldeira das Furnas e o cozido confecionado no interior das fumarolas,
"um acontecimento que reúne as famílias e cuja preparação é liderada
pelas mulheres, mas cujo trabalho acaba por não ser tão valorizado",
sublinhou à Lusa Mafalda Araújo.Segundo a
artista, a mostra "coloca a caldeira das Furnas e o cozido como um
palco" para se "pensar a performatividade do género e o trabalho
doméstico invisível e poucas vezes valorizado".As
Furnas, no concelho da Povoação, são um dos principais pontos
turísticos da ilha de São Miguel e são conhecidas pelas suas fumarolas e
nascentes de águas termais e pelo seu cozido feito debaixo da terra.Segundo
Mafalda Araújo, a exposição resulta de dois anos de investigação do
Coletivo Corisca, período durante o qual foram realizadas várias
entrevistas, com a parceira da UMAR – União de Mulheres Alternativa e
Resposta."Pegamos na Caldeira das Furnas
como um ponto de partida. E, focando no cozido, assistimos a um ritual
especial que não começa nas caldeiras, mas nas cozinhas privadas das
mulheres de toda a ilha que, na privacidade das suas casas, o vão
preparando", assinalou a artista à Lusa.Na
prática, a confeção do cozido "acaba por dar mais protagonismo aos
homens", por causa da "perfomance que desempenham no espaço público em
torno das fumarolas, cavando ou tirando o prato”.As mulheres “aparecem como meras assistentes quando, na verdade, foram elas que planearam e organizaram o evento familiar".A
curadora da exposição realçou que a mostra é composta por "três
instalações onde se pretende fazer uma analogia entre as mulheres e a
terra". Marina Rei explicou que a
exposição conta com vários outros suportes, como máquinas, por exemplo
uma alfaia agrícola e várias outras peças, assim como "uma estrutura que
faz uma alusão ao vapor sulfúrico e alguns ensaios audiovisuais". A exposição, no Centro de Monitorização e Investigação das Furnas, localizado numa das margens da Lagoa, é de entrada gratuita.