Exposição "Estação Metereológica" mostra obras sobre o território açoriano
26 de jul. de 2019, 15:55
— Lusa/AO online
A
mostra reúne o trabalho que as artistas Manuela Marques, natural de
Tondela, e Sandra Rocha, da ilha Terceira, desenvolveram ao longo de
dois anos “sobre os Açores, sobre a maneira de experienciar, de viver
este território e, ao mesmo tempo, é sobre duas pessoas que têm
afinidades pessoais”, explicou à agência Lusa o curador, Sérgio Mah.Em
“Estação Meteorológica” encontra-se “esta relação entre duas pessoas
que vivem em Paris, mas, ao mesmo tempo, muito centradas neste
território”, num trabalho que tem também em comum “um interesse
particular pela fotografia e por formas de especular e expandir a
relação visual com o território, muito marcado por fluxos, movimentos,
variações”.A exposição exibe obras “que
mostram o que normalmente não se vê, ou é secundarizado, numa visão
postal”, que, “normalmente, procura ter uma visão muito bonita sobre o
território, muito espetacular na exuberância visual de um certo
território”, explicou o curador.“O que
elas procuram aqui, e por isso é que a exposição se chama 'Estação
Meteorológica', são todos os outros elementos, todas as outras
variáveis, que participam na maneira como nós sentimos, ou marcam um
modo de estar ou de percorrer um sítio”, concretizou.Mas
a maneira como exploram os objetos é diferente para as duas artistas,
adianta Sérgio Mah, destacando “uma característica muito comum no
trabalho da Manuela, que é olhar para um detalhe como se ele fosse uma
paisagem. O que vemos é que a luz, a cor, as direções, o pequeno e o
imenso são coisas muito características do trabalho da Manuela”.“No
caso da Sandra, ela quase que olhou mais para fora, a partir do
território, a partir da ilha, para o infinito. E pegou muito naquilo
que, à partida, está longe e que é misterioso, por exemplo, o tema dos
cetáceos e da caça à baleia, que ela usou como uma metáfora dessa ideia
de estar numa ilha e de olhar e efabular sobre aquilo que a circunda”,
prosseguiu.Manuela Marques pegou em
registos sismológicos que fazem parte do arquivo do Observatório Afonso
Chaves, como no vídeo que se encontra à entrada da exposição, ou numa
série de fotografias em que mistura, no espaço e no tempo, os registos
da crise sismológica dos Capelinhos, nos anos 70, que mostram como o
fenómeno foi sentido em diferentes ilhas.“O
que me interessava era reutilizá-los, não os utilizar como arquivo,
porque o arquivo já existe, é uma coisa muito bonita, fantástica, mas eu
gosto de, às vezes, utilizar os arquivos para reinterpretá-los, criar
uma espécie de sensação de fluxo – é por isso que estão na vertical”,
explicou a artista.Essa ideia de fluxo é
transmitida, também, numa série em que, recorrendo a papel dicroico
(revestido com um filme metálico especial, que reflete certas cores e
permite que outras o atravessem), capta as mudanças da luz.“Aqui
foi mais a luz que me interessou. Essa luz tão particular dos Açores,
que está sempre a passar. Passa-se do cinzento escuro para uma espécie
de sol. Acho que foi a coisa que mais me impressionou quando estive cá
da primeira vez – é uma situação que está sempre a mudar, todo o tempo”,
observou Manuela Marques.Nos trabalhos
selecionados há ainda espaço para “um piscar de olhos ao romantismo”,
que encontrou na ilha “de uma maneira muito forte e que está ligada a
uma certa nostalgia aqui de São Miguel”.“Essa
questão do romantismo em São Miguel é uma coisa que gostarei de
continuar a trabalhar e que leva a uma certa melancolia. Acho que é uma
ilha com muitas forças telúricas, super fortes, que até transmite uma
certa”, considerou a artista.Sandra Rocha
explorou a sua ligação com a sua ilha, a Terceira, olhando para “a
relação dos Açores com os cetáceos, desde a caça da baleia, até ao
período do whale watching”.“Andei um
bocadinho no universo que é o limite da terra e o que é que está ali no
mar, que também nos pertence, ainda, e como é que nós, com as mudanças
do mundo e tudo e a mudança do clima, passámos dessa fase em que
caçávamos os animais, sobretudo o cachalote, que é residente - as fêmeas
- e agora saímos para o ver, em contemplação absoluta. Será que também
vale a pena? É o mundo deles… Éramos intrusos de uma maneira, agora
somos de outra”, afirmou.O seu trabalho
fotográfico reinterpreta a sinalética usada no tempo da baleação, antes
da radiofonia, e ficciona o “que poderia ser o som dos cachalotes”,
transportando o tema para os vídeos exibidos, como na obra em que
reescreve “a lenda do baleeiro, só com pedaços do livro do [Herman]
Melville, ‘Moby-Dick’”.A exposição, que
pode ser visitada até 20 de outubro, no Arquipélago – Centro de Artes
Contemporâneas, terá uma visita guiada, organizada pelo serviço
educativo do espaço, este domingo às 16:00.No
mesmo dia, às 17:00, o Arquipélago, na Ribeira Grande, ilha de São
Miguel, recebe o Quarteto Quadrivium, que irá interpretar “Sete Velhos
Corais Portugueses”, de Eurico Carrapatoso, “Quarteto de Cordas”, de
Luiz de Freitas Branco e Quarteto de Cordas Op. 18, nº1, em Fá maior, de
Ludwig van Beethoven.